20090626

A Solidão



Sentir-se rejeitado
Olhar-se mal amado
E pensar em si a culpa, o pecado

Mas não ler no peito a causa, o motivo
De não haver ninguém consigo
Alguém onde chorar, um ombro amigo

Tristeza, penas, abandono
Perde-se a alegria de viver
A alma adoece
E o rosto desvanece
Na vida amargo sono
De uma noite que não quer amanhecer

Quando a amizade é apenas utopia
E o amor unicamente uma ilusão
Sufocam emoções em negro dia
Como um arrocho enforcando o coração

É um olhar que nunca acontece
É um sorriso que tarda em chegar
É um verbo que sofre negação
É uma dor que te cobre como um manto
E transforma o teu rio em mar de pranto
E te assombra esse fantasma, a solidão

Mas se dela desprenderes o olhar
E granjeares uma réstia de luar
Nem tudo está perdido, podes crer
Segura firme a chama que alumia
Pois dentro de ti tens o poder
De transformar a noite em pleno dia

(22.09.2008)

Publicado na Antologia "Entre o Sono e o Sonho" (25.07.2009)


Foto de Jorge Soares

Foto e Poema publicados em:
Momentos e Olhares (12.08.2009)
Intervalo para Café (29.09.2011)

Obrigada, Jorge!

20090612

Junho


Ana Nunes, A Ceifa

Junho, dizem, é mês de foice em punho. É, por isso o mês de ceifar os pastos, os trigais, em alegres madrugadas, recheadas de frescura e de alvura. É bom poder comemorar Portugal e Camões; e os santos Populares. É tempo de folia. Veste-se roupa mais leve, pois chega o Verão lá pelo São João. Nos seus trinta dias, brotam flores que lembram o paraíso, e com elas vem o sorriso.

M. Fa. R. (17.03.2009)

Adenda em 12.06.2009:

Hoje, as andorinhas pequeninas fugiram do ninho do beiral do telheiro e voaram alegres pelo ar; os pintainhos espreitaram por debaixo da mãe, saídos das cascas; e os gatinhos brincam todos três no alpendre ao sol.

20090601

Dia da Criança... Pobre



Por entre as cortinas de vergonha
Que te separam de outro mundo
Com teu rosto embaciado
E sorriso desbotado
Procuras o firmamento
Mesmo que em pensamento

És um actor
Em palcos de negra via
Com plateia que dormente presencia
O teu desempenho assustado
De gesto envergonhado
Sem que a vida te sorria

Criança pobre
Triste
Faminta
Mal amada
Maltratada
Menino de rua
Menina da favela...

Quem dera no mundo
Não mais houvesse
Nem fome
Nem guerras
Nem doenças
Ou sentenças
Que te tiram a alegria

Criança...
Do lado de lá
Ou de cá
Onde mora vento e lama
No reino da fantasia
Adormece em leda cama
Que hoje também é
Teu dia!

(M. Fa. R. - 01.06.08)