20101228

Em Jeito de Balanço



Caríssimos,

Preciso de lhes dizer o que me vai na alma.

Por um tempo foram-me acontecendo alguns exercícios idiotas (entre outros que me percorreram). E como idiota os resolvi. A minha realidade não estava lá – nem de perto, nem de longe. Mas aproximei-me; foquei-os pelo canto do olho; inspirei fundo para lhes sentir o odor; apurei o ouvido ao som do vento que me os trazia, e que umas vezes me era brisa e outras, ventania; rocei-lhes ao de leve os lábios, a tentar que me fossem sede; tacteei-lhes as vértebras dorsais, que pai-nossos não foram, mas orações se fizeram. Deles me ficou um mundo novo.
Quero ver tudo isso como ginástica: um levantar de pesos, ou carregá-los.
Por vezes, descansar à sombra é mais sedutor. Não dói. Carregar pesos custa. Custa o esforço, a dor, o suor… O exercício pode ser violento e causar rupturas, estriamentos, se não houver algum aquecimento prévio.
Porém: os saltos em altura e em comprimento permitiram-me alongar horizontes e estreitar mares por onde me será possível sempre navegar.

Bem-hajam por fazerem parte da tripulação do meu barco.


(M. Fa. R. - 23.07.2010)


Feliz 2011!

20101218

Escrever é Voar



– Um escritor pode delirar de forma deliciosa ao escrever. Pegar nas nuvens e com elas erguer castelos, cavalos, cavaleiros, pastores, rebanhos, pradarias, florestas, flores, sinfonias; e muitas cores roubar ao arco-íris para pintar um painel; e com o mesmo pincel soletrar o calor do sol ou o orvalho, a chuva, o frio, a neve, ou o amor, o trabalho, a dor, a tristeza, a alegria; e a fome, a guerra, a paz, a vida, a morte, a fortuna ou a má sorte podem estar lado a lado na mesma paleta; e cruzarem-se mares e céus, rios e ruas, estrelas e luas, vulcões, e ventanias, ou vendavais, trovoadas, tempestades, furacões e tudo o que se quiser e ousar fazer brotar dos lábios e dos corações. Acreditas?
Escutava-o enlevado. Quando se tem 15 e 16 anos pode-se ter o mundo aos pés sem se o saber. Pode-se, até, ter o mundo na mão e fazê-lo girar, ou então deixá-lo cair por senti-lo pesado.
– Isso é voar. E fazer sonhar. Eu também sonho um dia ser escritor. Escrever isso e muito mais. Escrever um livro, como tu. Imprimir no papel palavras que me nasçam na mão, mas não sei se isso é querer agarrar com os dedos a lua toda, cheia, quando apenas se vai sendo tocado por uns raios do seu luar.
– Quando se sonha tudo é possível: a lua brilha-te na mão; as estrelas sorriem-te nos olhos; o arco-íris solta-se-te da boca; o sol é o teu coração; e todo tu és rios e mares, fogo e água pura, areia que enche o deserto, camada de ozono que envolve a atmosfera; és a própria atmosfera, o ar que tu próprio respiras. Acredita: “O sonho comanda a vida”. E tu podes. Tu és. Aceita. E avança resoluto, sem nenhum receio de contrariares ventos, correntes e marés. Firma os pés na terra, deixa que te escorra no peito o suor dessa guerra e, nas mãos, terás ganho essa luta.

(M. Fa. R. 16.11.2010)


Para todos, os meus votos de um feliz Natal de luz, paz, amor e alegria!

20101209

(A)corda



“A corda rebenta sempre pelo lado mais fraco”. Um lado que vai enfraquecendo cada vez mais. Dando de si. Em dor.
De um novelo me tiraram e nós me seguram as pontas. Longe vai o tempo em que, nova e lustrosa, era bem resistente aos safanões das mãos que me faziam dançar.
Com o tempo e o uso, a fragilidade apodera-se de qualquer corpo e o meu não é excepção. Vão-se-me desfiando os fios, no desfiar dos dias, ao toque das Avé-Marias. Esticada à força de puxões e fricções, estou prestes a rebentar. Ai. Geme-me a alma quando a dança, cada vez mais pífia, me acusa do desgaste ao sacudir-me no chamamento para a missa (“a messe é grande e os trabalhadores são poucos”). As vibrações percorrem-me o corpo despido, dorido de tanto badalar. E escorre por mim o medo de soçobrar às mãos que me cofiam. Então, se houver um toque a rebate, depressa ficarei nas mãos de alguém.
Os sopros de uma coruja, que vislumbro por uma janela meio iluminada, minha companheira nesta noite assombrada, vêm gelar-me de frio medonho os ossos cansados; à minha volta move-se um vazio abismal; e eu, com os dedos descarnados de tanto me segurar, espero pelos compassos da aurora que me venham libertar.
Mas, se então ainda não partir, estou certa de que irão continuar a servir-se de mim, sem pensarem em me substituir. Custará assim tanto reparar que esta pobre corda, presa ao badalo do sino do campanário, está cada vez mais velha e gasta, e quase quase a rebentar?
E é então que me sinto abanar: “(a)corda”!

(M.Fa. R. - 09.11.2010)