20110516

Palavras, palavras, palavras...



Queria mergulhar as palavras (muitas das palavras) em água com lixivia, para que se diluíssem como manchas de vinho ou de sangue. Porque são isso muitas delas: manchas de vinho e de sangue. Manchas de vinho que lembram embriaguezes; manchas de sangue largado de feridas. Umas e outras afogueadas de dores, precursoras e persuasoras de outros olores. Todas danam o pano em que caem, mesmo pano-cru (no melhor pano cai a nódoa).
Queria mergulhar um monte de palavras em água com lixivia para que os micróbios que as infectam sucumbissem nessa solução.
Queria corar ao sol as palavras. Todas as palavras. Para que se tornassem brancas, puras, imaculadas, resplandecentes. De vida. Para que se tornassem transparentes e se pudesse ver a alma através delas. Porque umas são manchas de vinho; outras de sangue. Outras são pejadas de infecções por vermes de toda a espécie. Outras, ainda, são noite de breu. Umas e outras cruzam-se em nódoas emaranhadas, tão apertadas que, muito dificilmente, um raio de claridade consegue por elas furar.
E se as nódoas que embotam o pano da alma bebessem água oxigenada? Talvez respirando desse oxigénio perdessem a cor cianozada, que deixa qualquer alma manchada. Valeria a pena? Valeria sempre a pena se a alma…
Ah, queria, então, ensopar outro rol de palavras com água oxigenada, para que efervescendo espumassem e assim se depurassem. Por fim, enxaguá-las, a todas, até ficarem reluzentes, espelhadas.
É que não queria perceber um ror de palavras enquanto não fossem todas lavadas. Porque fazem mal, porque doem, moem, ou enganam e nos tramam; porque constrangem ou oprimem; porque não são inocentes, fazem muitos padecentes, uns ou outros meio dormentes; e mesmo se não nos matam, nos deixam a todos doentes.

13 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Há palavras assim, de facto.
Mas têm a vantagem de dar mais brilho às lavadas.
Porque tudo é relativo...
Um bom texto, gostei.
Beijos.

mfc disse...

Sim... mas desse modo deixariam de ser palavras!
Teriam já um outro significado!
Perderiam a sua verdade.

Álvaro Lins disse...

Excelente post! Gostei
Bjo

Lilá(s) disse...

Há palavras assim como dizes, talvez por isso tenhamos que as escolher muito bem...
Beijinhos

Graça Pires disse...

Mergulhar as palavras no silêncio...
Beijos.

Petrus Monte Real disse...

Há palavras que ferem como punhais... e matam como balas!
Mas, outras há que nos enchem a alma!
É o poder da palavra que, no fundo, ainda funciona,
como tudo na vida.
Vejo, nas tuas,
um grande sinal de esperança de vida melhor.

Bom fim de semana
Beijo

Olinda Melo disse...

Olá, Fa

Excelente texto.

Palavras leva-as o vento, diz o ditado, mas antes aquelas que ferem, magoam, deixam um rasto indelével.Há em nós um dom que nos leva a depurá-las: a nossa consciência e os nossos valores.E seria a tal 'lixívia' necessária para que elas se tornem palavras de amor e tolerância.

Beijo

Olinda

© Piedade Araújo Sol disse...

pois, há palavras que realemnet magoam muito.

mas, se há algo que não se pode lavar, são as palavras.

bom fim de semana!

beij

Nilson Barcelli disse...

Estas palavras estão a ficar encardidas... precisam de ser renovadas...
Beijos, querida amiga.

Mar Arável disse...

... mas também as conheço

a respirar por guelras

Vieira Calado disse...

A palavra é uma arma branca...

de dois gumes!

Saudações poéticas

Baila sem peso disse...

Menina musical
este foi um dia especial
e tive muitas palavras...
as que lavam a alma
e pedem à vida para ter calma...
mas já vai longe o dia
e já outro nasceu e morreu
e já muita palavra se perdeu...
e na vida das palavras
mergulhamos em nódoa ou perfume
como água ou lume
e vem silêncio que as venceu! :)

Beijinhos e desculpa este atraso meu!!

Ailime disse...

Amiga Fá,
Deixo poucas palavras, mas que gostei do que li, lá isso gostei:).
Beijinhos,
Ailime