20110530

Moldura Matinal



Leve é o acordar na vegetação por entre aromas molhados de burganiça e sabugueiro. 
As lágrimas de chuva suspendem-se nas ramadas, entrecortadas pelos reflexos dourados de um sol tímido. Os chilreios dos pássaros, de múltiplas linhagens, enchem o ar de colorido. Poisam, levantam, vestem as asas com a manhã e espanejam-nas sôfregas do dia. 
Este levanta-se devagar, acelerando à medida que o sol se vai abrindo num sorriso, ainda que inconstante e inseguro.
Um quadro interactivo a emoldurar no aro da janela, enquanto eu abro a boca num bocejo e esfrego os olhos piscos, para me revestir da vida, sempre renovada, que cada manhã me oferece.

20110516

Palavras, palavras, palavras...



Queria mergulhar as palavras (muitas das palavras) em água com lixivia, para que se diluíssem como manchas de vinho ou de sangue. Porque são isso muitas delas: manchas de vinho e de sangue. Manchas de vinho que lembram embriaguezes; manchas de sangue largado de feridas. Umas e outras afogueadas de dores, precursoras e persuasoras de outros olores. Todas danam o pano em que caem, mesmo pano-cru (no melhor pano cai a nódoa).
Queria mergulhar um monte de palavras em água com lixivia para que os micróbios que as infectam sucumbissem nessa solução.
Queria corar ao sol as palavras. Todas as palavras. Para que se tornassem brancas, puras, imaculadas, resplandecentes. De vida. Para que se tornassem transparentes e se pudesse ver a alma através delas. Porque umas são manchas de vinho; outras de sangue. Outras são pejadas de infecções por vermes de toda a espécie. Outras, ainda, são noite de breu. Umas e outras cruzam-se em nódoas emaranhadas, tão apertadas que, muito dificilmente, um raio de claridade consegue por elas furar.
E se as nódoas que embotam o pano da alma bebessem água oxigenada? Talvez respirando desse oxigénio perdessem a cor cianozada, que deixa qualquer alma manchada. Valeria a pena? Valeria sempre a pena se a alma…
Ah, queria, então, ensopar outro rol de palavras com água oxigenada, para que efervescendo espumassem e assim se depurassem. Por fim, enxaguá-las, a todas, até ficarem reluzentes, espelhadas.
É que não queria perceber um ror de palavras enquanto não fossem todas lavadas. Porque fazem mal, porque doem, moem, ou enganam e nos tramam; porque constrangem ou oprimem; porque não são inocentes, fazem muitos padecentes, uns ou outros meio dormentes; e mesmo se não nos matam, nos deixam a todos doentes.

20110503

15 Mandamentos para bem conviver com os inimigos




1. Se queres bem conviver com o teu inimigo, ignora-o. Não alimentes a sua fome de acicatar a inimizade.

2. Fecha os olhos às suas provocações; não queiras ver o mal que te quer fazer.

3. Se te acercar um temporal vindo dos lados do teu inimigo, afasta-te e observa-o de longe até que perca a intensidade; um temporal tem sempre um lado fascinante, espectacular, quando no auge, mas terá um fim, tal como teve um princípio.

4. Passa ao lado do seu mar se ele estiver muito bravo, não te vá ele afogar.

5. Aprende a nadar, para o caso de alguma das suas ondas te abalroar.

6. Rema contra a maré, com força, sem desanimar, se preciso for.

7. Contorna, ao largo, o seu barco, antes que te pegue e te faça naufragar.

8. Se não o podes vencer, junta-te a ele. Come com ele à mesa – reparte a refeição, dá-lhe do teu pão; embebeda-o com o teu vinho, pode ser que ele caia como um patinho.

9. Finge que vais na sua cantiga, mas com esperteza, sem te deixares cair na sua lábia.

10. Dá-lhe palmadinhas nas costas – um elogio engana-lhe o frio e aquece-lhe o ego.

11. Sorri para ele sem que perceba que te estás a rir dele.

12. Levanta-o quando cai ao chão; dá-lhe a mão mesmo que te apeteça dar-lhe um chuto com o pé. Assim é que é para te sentires maior.

13. E se cair no hospital vai visitá-lo; melhor ainda: visita-o na cadeia.

14. E se ele tiver a barriga tão cheia que o ódio esteja sempre a transbordar, veste-te de uma couraça de ferro, ou de aço – uma capa (quem tem capa sempre escapa).

15. Uma última solução: é sempre melhor não o ter ao pé da porta, muda de lugar (longe da vista, longe do coração).

(M. Fa. R. - 07.12.2010)