20140702

Longe do mundo



Primeiro era a bruma. Depois um pingo, mais outro pingo, seguidos de outros pingos e mais pingos: uma chuva miudinha caindo levemente no terraço.
Além, num murmúrio cativante, por detrás das rochas, o mar a perder-se no horizonte, a prender-se nos olhos, a impregnar-se nos sentidos… a evolar-se na imensidão.
Tudo é mar: a neblina; a chuva; a manhã morna e peganhenta. A imensidão longe do mundo.

20140425

Papoila



Papoila

Sangue na face
Lume no olhar
O eco de um grito no vento

E histórias para contar...
Nem todas rúbeas
De morrer de amor
Tantas de desfolhar
Sem cor

As papoilas são flores capazes de crescer numa terra queimada.

Papoilas seremos, de lume e sangue!


20140320

A Potes


Um pote: metade barro do fundo à barriga; metade verde vidrado da barriga à boca. Pequeno. Em cima da mesa, no tampo de vidro. 
Outro pote: grande – do lado de fora do vitral. Escorre-lhe o amarelo vidrado sobre o branco barro. 

Para lá das arcadas, no cimo da montanha – lá ao longe – escorre a bruma ao encontro do verde das pastagens, por detrás do barro das telhas nos telhados – menos longe – parcialmente encobertos por outros verdes que se desdobram em vários tons de ramagens. Espessas. Compactas. Mais perto. Mas, por sua vez, outros barros de telhados se lhes sobrepõem – ainda mais perto – espreitando outros verdes, esguios de caniços e de folhas laminadas de palmeiras, oscilando na brisa – tão perto – no jardim verde de relva. Já ali. 

E debaixo da arcada, o pote. Escorrido de amarelo. E para cá do vitral, o pote. Metade verde vidrado da boca à barriga; metade barro da barriga ao fundo. Em cima da mesa, do tampo de vidro. 
Debaixo da mesa, outro pote. Invertido. Colado ao vidro. Reflexo baço de sombra. 
Por detrás da mesa, a cadeira. Aqui. E eu sentada nela. 
E espero. Sentada. 

A espera faz-se tão longe! A potes.


20140204

Dias... e dias

Há dias chuvosos, intensos, tão cheios de tudo, que prendem o ar.
Há dias de chuva, regados, salgados, que sabem a mar.
Há dias em que o odor do sal se mistura com o sabor da dor.
Há dias em que as cores da terra e do céu se fundem na carne,
Se evolam em prece, se colam ao respirar.
Há dias assim.
Chuvosos,
Intensos,
Molhados,
Rasgados.

Assim me têm sido dias… e dias
Assentados.

Tudo isso…
E abençoados.