20140320

A Potes


Um pote: metade barro do fundo à barriga; metade verde vidrado da barriga à boca. Pequeno. Em cima da mesa, no tampo de vidro. 
Outro pote: grande – do lado de fora do vitral. Escorre-lhe o amarelo vidrado sobre o branco barro. 

Para lá das arcadas, no cimo da montanha – lá ao longe – escorre a bruma ao encontro do verde das pastagens, por detrás do barro das telhas nos telhados – menos longe – parcialmente encobertos por outros verdes que se desdobram em vários tons de ramagens. Espessas. Compactas. Mais perto. Mas, por sua vez, outros barros de telhados se lhes sobrepõem – ainda mais perto – espreitando outros verdes, esguios de caniços e de folhas laminadas de palmeiras, oscilando na brisa – tão perto – no jardim verde de relva. Já ali. 

E debaixo da arcada, o pote. Escorrido de amarelo. E para cá do vitral, o pote. Metade verde vidrado da boca à barriga; metade barro da barriga ao fundo. Em cima da mesa, do tampo de vidro. 
Debaixo da mesa, outro pote. Invertido. Colado ao vidro. Reflexo baço de sombra. 
Por detrás da mesa, a cadeira. Aqui. E eu sentada nela. 
E espero. Sentada. 

A espera faz-se tão longe! A potes.


11 comentários:

Lilá(s) disse...

Será algum desses potes o tal das moedas de ouro?
Bjs

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bom dia
Sonhei aqui e deixei-me acorrentar nesta nova forma de escrever como quem pinta um quadro.
As frases pequenas. Uma palavra apenas seguida de ponto.
Quem quiser pode parar ou continuar lendo ou sonhando nos acontecimentos de cada quadro.
Cada pote tem as cores que lhes damos ou os materiais que os fazem mais preciosos ou delicados.
É assim que muitos dias me sento ao Sol e cuido do meu jardim.

Ailime disse...

Olá Fá, como tem passado amiga?
Ao lê-la imaginei uma tela em que ia visualizando a sua belíssima poesia! Adorei a potes;))! Beijinhos e muito obrigada por este sublime momento! Ailime

Mar Arável disse...

Para lá das pontes

os potes

Ana Tapadas disse...

Um texto - espera - poema...nostalgia e beleza.

Beijinho

Graça Pires disse...

Os potes como pretexto de uma espera e de um excelente texto...
Beijo.

Nilson Barcelli disse...

Tu escreves a potes...
Excelente, minha querida amiga, gostei imenso.
Um beijo.

Daniel C.da Silva (Lobinho) disse...

Um pote... a dizer o nosso olhar!
beijo amigo

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

Esperar até que as esperas sejam gestos. Lindo sempre.

Um beijinho com carinho e bom Domingo.
Sonhadora

Emília Pinto disse...

Um simples pote que pode conter pequenos pedaços de vida; olhamos ao longe e temos sempre uma paisagem...amontoados de casas...casarões...casebres; montanhas por trás...rios correndo pelos seus vales... simples jardins enfeitando as casas...muitas vezes muito lixo tornando mais miseráveis os casebres. E lá continuamos nós... a cada dia um novo pote, diferente, mas sempre presente;boca para baixo...inclinado...mas alguns ao alto.., de boca para cima, como a lembrar-nos que sempre o podemos encher com as nossas memórias...os nossos sonhos...as nossas esperas. Há potes a potes, amiga, mas gostei muito destes teus. Um beijinho e até sempre.
Emília

. intemporal . disse...

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. lembrou.me Pessoa . pois lembrou .

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. de.dentro.para.fora . e sempre inteligente .

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. um beijinho meu .

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