20191012

Pousar


Toda a vida é feita de riscos,
rabiscos e outros iscos
e por vezes versos;
outras vezes silêncios apenas,
gritos mudos que entopem a voz
para lá dos poemas que assombram em voo.

E há palavras nascidas entre poeira e pedras,
sem a humidade requerida,
que depressa se transformam em pó que o vento leva.

Porque o mundo ao derredor é um vaso de barro fendido,
que não retém a água para a rega.

A lua vai e vem, enche e esvai-se;
com momentos luminosos
e momentos de penumbra;
mas volta sempre o seu brilho
embora às vezes por entre nuvens.

E há dias inteiramente noites que são tudo escuridão;
maré vaza, preocupação,
união ao mundo
que depõe o coração nas mãos
dormentes, doentes, cansadas, estropiadas,
dantes ensinadas,
que a custo reagem aos sonhos.

O tempo passa
e desgasta
como água de um rio correndo
corroendo tudo à sua passagem.

Rio que corre para o grande oceano,
com alturas de grandes caudais
e outras de seca extrema;
desfrutando da passagem por montes e vales,
pedras, pedregulhos, calhaus rolantes
e paisagens de planícies, praias
e campos verdejantes.

Assim, entre o voo e a noite escura 
tem de haver momentos de pousar. 
Aproveitar um fresco orvalho, 
visita do sonho que ainda emerge das mãos. 

E sempre recomeçar.

20191011

Metamorfose


Correr pelo campo, coberto de margaridas, é esvoaçar pelos céus como águia solta ao encontro do sol. Ah, se pudesse ter asas! Assim vibra Luísa, ao experimentar a sensação de liberdade que a vem salvar.
Luísa, prisioneira de um sonho, ao mergulhar os pés no tapete de margaridas, delira como já há muito não lhe acontecia. Ganhar asas é anseio que a persegue e a mantém cativa, refém de um azul que vislumbra ao longe, mas que ao mesmo tempo os grilhões do medo lhe vão impedindo que aconteça.
Agora, este chão, orvalhado de flores, segreda-lhe ousadia. Barricar as portadas do seu mundo, logo que o medo se retire por uns instantes, é a decisão acertada para se desembaraçar, de vez, do seu opressor. O medo ficará para sempre do lado de fora, impedido de atravessar a barreira. Há-de voar. Perseguir o sonho, mantê-lo vivo. E jamais será simplesmente mulher. Será deusa, anjo, pássaro ou apenas libelinha, tanto faz. Voará. Riscará o céu, a lua, as nuvens… ou apenas as flores. Irá ao encontro da luz mais brilhante, ou apenas da linha do horizonte. Mas voará. Voará com as asas coloridas que um arco-íris lhe trouxer.
Por enquanto é apenas crisálida.

(M. Fa. R. - 06.02.2009)

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