20090914

Setembro


Setembro traz as cores quentes do Outono e o regresso à escola. Traz a despedida do Verão e a nostalgia ao coração. Já traz chuva, e com ela, o cheiro agradável a terra molhada; mas não a suficiente para evitar que as fontes possam secar. É tempo afadigado de cortar o arroz; e tempo alegre de vindimar.

M. Fa. R. (17.03.2009)

20090903

Grito


[Edward Munch, O Grito]

Grito
Mas só me responde o eco.
Depois faço silêncio
Na escuridão.
Os sons abafados dos pensamentos
Surgem então como lamentos
Neste beco sem saída
Onde não sei ser chegada
Nem ponto de partida
Mas antes encruzilhada
De encontros
Desencontros
Desencantos
Ausências
Prantos…
Mas, ainda assim,
Vida.
É bebida de absinto
Que faz de mim labirinto
Charneca de desenganos
Claustros murados
Profanos
Um mundo de turbilhões
Ruelas de dor
Desalento
Velas rasgadas ao vento
Que sopra desilusões.
E grito
Mas só me responde o eco.

(08.08.2009)

Poema também editado em: Porosidade Etérea em 09.09.2009

20090802

Agosto


Agosto tem trinta dias e mais um roubado a Fevereiro. Diz que é mês de azar. Mas o que há no mês inteiro é calor, festas e amor. Os noivos vão casar; os namorados passear; e todo o mundo desfrutar das merecidas férias. Praia, mar, lazer, prazer… e luar. É mês de namorar e descansar; de procurar sombras refrescantes, regatos murmurantes, e momentos escaldantes; há sempre um ou outro par que se alheia do mundo para se beijar.

M. Fa. R. (17.03.2009)

20090710

Julho


Chris Wake, Le Danse (After Matisse)

Julho é o mês [do sangue] de Jesus. E das colheitas, das eiras, e de arrecadar no celeiro, a fim de ter pão para comer o ano inteiro. Há sol e abelhas com fartura; pelo que não é de descurar protecção à altura! Miúdos e graúdos absorvem a luz que se reflecte em si; e tudo é algazarra e alegria nos seus trinta e um dias.

M. Fa. R. (17.03.2009)

20090626

A Solidão



Sentir-se rejeitado
Olhar-se mal amado
E pensar em si a culpa, o pecado

Mas não ler no peito a causa, o motivo
De não haver ninguém consigo
Alguém onde chorar, um ombro amigo

Tristeza, penas, abandono
Perde-se a alegria de viver
A alma adoece
E o rosto desvanece
Na vida amargo sono
De uma noite que não quer amanhecer

Quando a amizade é apenas utopia
E o amor unicamente uma ilusão
Sufocam emoções em negro dia
Como um arrocho enforcando o coração

É um olhar que nunca acontece
É um sorriso que tarda em chegar
É um verbo que sofre negação
É uma dor que te cobre como um manto
E transforma o teu rio em mar de pranto
E te assombra esse fantasma, a solidão

Mas se dela desprenderes o olhar
E granjeares uma réstia de luar
Nem tudo está perdido, podes crer
Segura firme a chama que alumia
Pois dentro de ti tens o poder
De transformar a noite em pleno dia

(22.09.2008)

Publicado na Antologia "Entre o Sono e o Sonho" (25.07.2009)


Foto de Jorge Soares

Foto e Poema publicados em:
Momentos e Olhares (12.08.2009)
Intervalo para Café (29.09.2011)

Obrigada, Jorge!

20090612

Junho


Ana Nunes, A Ceifa

Junho, dizem, é mês de foice em punho. É, por isso o mês de ceifar os pastos, os trigais, em alegres madrugadas, recheadas de frescura e de alvura. É bom poder comemorar Portugal e Camões; e os santos Populares. É tempo de folia. Veste-se roupa mais leve, pois chega o Verão lá pelo São João. Nos seus trinta dias, brotam flores que lembram o paraíso, e com elas vem o sorriso.

M. Fa. R. (17.03.2009)

Adenda em 12.06.2009:

Hoje, as andorinhas pequeninas fugiram do ninho do beiral do telheiro e voaram alegres pelo ar; os pintainhos espreitaram por debaixo da mãe, saídos das cascas; e os gatinhos brincam todos três no alpendre ao sol.

20090601

Dia da Criança... Pobre



Por entre as cortinas de vergonha
Que te separam de outro mundo
Com teu rosto embaciado
E sorriso desbotado
Procuras o firmamento
Mesmo que em pensamento

És um actor
Em palcos de negra via
Com plateia que dormente presencia
O teu desempenho assustado
De gesto envergonhado
Sem que a vida te sorria

Criança pobre
Triste
Faminta
Mal amada
Maltratada
Menino de rua
Menina da favela...

Quem dera no mundo
Não mais houvesse
Nem fome
Nem guerras
Nem doenças
Ou sentenças
Que te tiram a alegria

Criança...
Do lado de lá
Ou de cá
Onde mora vento e lama
No reino da fantasia
Adormece em leda cama
Que hoje também é
Teu dia!

(M. Fa. R. - 01.06.08)

20090514

Um princípio no fim



Um fim é como um princípio.
No princípio: o início, a origem, o começo, a base, a causa primária; mas também opinião, lei, regra, máxima…
No fim: o termo, a conclusão, o limite, o remate, o final; mas também intenção, alvo, plano, motivo…
Se há um fim é porque existiu um princípio. E quando se começa é sempre no fim; se um fim acontece é sempre o início de outro algo que está lá para a frente.

Começa-se por se dar corda a uma roda de balanço. Balança-se, toma-se balanço, gira-se em torno de um ponto cardeal – norte, ou oriente – e chega-se a uma altura do campeonato, que pode ser o fim, mas que é sempre um início. Uma meta: um ponto de partida num ponto de chegada. Completa-se um ciclo. Fecha-se um círculo; dá-se uma volta completa. Uma roda que roda, que gira e torna a girar. Uma volta que volta ao começo, em que já não há mais volta a dar… mas em que apetece recomeçar.
Entre um princípio e um fim fica um intermédio, um caminho percorrido. Chegar ao fim de um caminho, e sabê-lo uma rota de descobertas, é uma vontade de ir mais além, um pouco mais longe: ganhar asas e voar. Cruzar céu, e estrelas, e lua, e também nuvens; arriscar ver o sol de perto e queimar as asas; explorar para além do limite conhecido, rebolar nos sonhos, saltar de um trampolim e… aterrar.

Escrever: nas palavras riscadas dizer coisas que de viva voz não ousam aparecer; dar vida a verbos que na vida se esquecem de falar, escondidos que estão debaixo da língua, enovelados que ficam sob os anéis dos cabelos. Desafiar os próprios limites. Alinhar detalhes, pormenores, ritmos, ecos; juntar letras, marcar sílabas, compor falas, encher espaços, ensaiar, ler… e apagar; mandar espreitar pela janela o botão que não quer entrar na casa; espantar-se com as descobertas. Soltam-se objectos, sujeitos, predicados, complementos directos, indirectos… indirectas, metáforas, imagens, aliterações… emoções… acentos, vírgulas, pontos de interrogação, de exclamação, finais; lápis, canetas, papéis. Riscar a vida com a ponta do lápis: escrever, escrever, escrever. E, no fim, naquela hora, ficar tanto por dizer.
No fim há sempre um princípio: escreviver!

(M. Fa. R. - 24.04.2009)

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