20090314

Temporal



“Vem, dançamos?”
“Pois, não! O prazer é meu.”
Ele a enlaçou.
E, no calor do abraço,
A beijou.
Ela mordeu, bateu,
Arranhou.
Ele riu, gargalhou.
Ela chorou…
Ferveu!

(M. Fa. R. - 07.03.2009)

20090305

Um rosto?


O OLHAR, óleo s/tela Tenini (Teresinha Canini Avila)

Um rosto, uma promessa, uma esperança no olhar. Um deixar fluir a vida no embalo de um sorriso, na insegurança de uma sílaba mal articulada, de uma gaguez de palavras mal soletradas. Encantamento.
Quem suportará padecer de um encantamento e sobreviver? Quem soçobrará a uma réstia de calor que perpasse na retina, a um lampejo de fogo que ateie um resquício de lume mal inflamado? Um louco? Por pouco se desenha um eco que não o chegou a ser. E se sucumbe. Por pouco, muito pouco!
Até que chega o tempo, a hora, em que as inseguranças passam a ser apenas lembranças e, até estas, se desvanecem. Tarde amanhece o espanto da mão que não foi dada, da sombra que não passou de aparência, da pergunta que não chegou a ser formulada. E nem por isso se deixa de olhar sem ver, e de acreditar sem querer. Nem de crer que a alma derreta ao toque de um silêncio ou de uma trombeta. Por mais breve que seja o tempo da nota, ela não deixará de fazer a música, nem a melodia seria igual se ela lhe faltasse. Nem a vida seria a mesma sem o encantamento do amor.
Mas amor é a própria vida. Amor que se dá, amor que se traz, amor que se faz. Amor, sempre amor! São olhares, são palavras, são mãos, são braços, são abraços e beijos. E desejos. E também são lágrimas, soluços, ou sorrisos, ou só pensamentos, ou pressentimentos, ou apenas imagens, paisagens, miragens, ou aragens, ou uma ligeira brisa ou, talvez, ventania. Um vento no rosto. Um rosto.
Um rosto? Nem sempre o chega a ser!

(M. Fa. R. - 28.02.2009)

20090227

Gata Borralheira


(Degas, The rape - 1868/69)

O amor tem destas coisas: por vezes acaba. Até o dia que nasce com um sol esplendoroso pode ficar carregado de nuvens negras. Porque teremos nós a capacidade de mudar?
Um amor para a vida inteira é, cada vez mais, uma utopia. Sonha-se com o príncipe encantado, ou com a Cinderela, e depois, o príncipe, afinal, é um sapo, ou à Cinderela, descobre-se que não lhe serve o sapato.
Um Príncipe e uma Cinderela – uma história banal: Filomena, menina-mulher, casara com o príncipe dos seus sonhos, depois de meia dúzia de meses de romance, em que por uma meia dúzia de vezes se olharam e outra meia se tocaram. Nesse dia, sentira-se a princesa que ele tinha resgatado de Gata Borralheira, daquela sub-vida em que os maus tratos físicos e psicológicos eram o seu pão de cada dia. Começara, enfim, a viver. Emergira e sentira-se flutuar numa doce magia, numa felicidade dourada e reluzente, num sonho tão cor-de-rosa, que até estremecia com medo de acordar e vir a descobrir que aquele sonho era um pesadelo.
Decorreram semanas de mel e luar em que ele, amante apaixonado, sofregamente, a ensinou a ser mulher, a descobrir sensações nunca antes imaginadas. E aprendeu o que era amar, o que era desejo, o que era o êxtase e a plenitude da felicidade.
Exalando um mar transbordante de águas quentes – escaldantes até – cega de amor e de vida, passavam-lhe ao lado alguns pormenores. O seu marido, cada vez mais, vivia na noite, com o álcool como companhia principal; mas ela desculpava, porque ele a amava sempre com intensidade, impetuosamente. Se existiam algumas diferenças, essas eram em si. Descobriu porquê: estava grávida. Ele confiou-lhe lágrimas de alegria, e nela elevou-se o instinto maternal – ele queria um filho. Sublime contentamento, suprema negridão. Não, não era uma filha que ele queria…
O modo como se desenrola uma história, apesar de contornos peculiares, não é muito diferente de outras histórias. Filomena carregava uma filha no ventre e, ao mesmo tempo, foi carregando agressões, violações, fome; toda a espécie de violência física, verbal e psicológica, por parte de um homem cobarde e irracional que, sob a capa do álcool, parecia lograr um só propósito. E a filha nasceu… e morreu em seguida.
O que sempre temera acabara de acontecer.

(M. Fa. R. - 21.02.2009)

20090218

Às Aranhas


“Golo, goolo, gooolo, gooooolo…” – é a melodia que me quer saltar das mãos.
As pessoas olham e eu atendo, sentindo-me estúpida.
- Estou?...
Não consigo evitar a voz rouca.
- Olá, amor! Pareces o lobo mau! – Ouço do outro lado.
Atrapalho-me.
- Eu não… quero dizer, não…
- Pois claro que não! Estava a brincar, mas é que não pareces tu!
- Não…
Quis dizer o que se passava, mas não deixou. Continuou a falar, muito segura de si.
- Não vais acreditar! Hoje vamos desenhar modelos nus… já viste bem? – Diz num riso miudinho, nervoso.
- Não!... – Elevo a voz e sinto, cravados em mim, olhares que me comem as palavras.
- É o que te digo! Eu sabia que não ias acreditar…
- Estou sem tempo… – digo num passo apressado – posso falar?
- Mas… tu não és o Paulo!
- Claro que não, se me tivesse deixado falar teria percebido que sou mulher.
- Bolas! Eu não posso acreditar que o Paulo me anda a trair por aí com outra qualquer…
- Não é assim…
Sinto-me incomodada com esta conversa e com as pessoas que passam por mim afogueadas. Sou uma aranha, no meio de um emaranhado de fios mal urdidos e que tenho de endireitar.
- Espere. Vou contar o que aconteceu.
- Estou à espera.
- O telemóvel não é meu.
- Olha a novidade! Isso, já a gente percebeu…
Levo um encontrão.
Isto é de loucos! Quem raio me mandou, numa rua movimentada em hora de ponta, pegar num telemóvel abandonado no chão?
(M. Fa. R. - 13.02.2009)

20090206

Quisera voar!



Oh, quem me dera voar!
Voar para onde me levasse o sonho.
Ver a imensidão do mar,
Ver de perto o azul do céu
Com o vento a fustigar o rosto
E o sol a arder na pele!

Quisera voar!
Voar é um imenso desejo!

E, sim, voo
Sem grilhões e com eles
Dentro do espaço limitado
Da minha suave cadeia.

Voar mais alto?
Não!
Não posso.
Não tenho asas!

(M. Fa. R. - 14.03.2007)

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