20091121

O que dói



- Amooor, chega aqui!

- Que aflição é essa, homem?

- Oh amor, onde é que estiveste tanto tempo?

- Ora, já te fiz falta?

- Não sabia de ti… e perguntar não ofende.

- Sabes que não gosto que me controles!

- Ui! Gosto tanto quando te irritas!

- És um chato...

- Vá lá, chega cá...

- Que foi agora?

- Hum! Estás coradinha… cheirosinha… e, apetitosamente, és minha.

- Eu sei que sim.

- Mas que arisca que te finges… ou é da minha vista?

- Pois… tua sou, mas sou mais eu!

- Olha, estás a ficar muito cheia de ti!

- Não, enganas-te, estou cheia de ti!

- Que disseste?

- Que se amanhã não chover, vai ser um dia bonito.

- Mas o que é que tens? Não te estou a entender.

- Mas a verdade há-de vir à luz… vais só ver!

- A verdade, amor, é que vai doer.

- Sim, amor… mais do que amar, dói viver.


M. Fa. R. (18.11.2009)

20091101

Novembro


Adriana Saez Paredes, Crisantemos

Em Novembro, o São Martinho: castanhas e vinho. E lume. E chá quente. Pois, frio. Geada. Roupa mais quente e aconchegada.
Mês de saudade e solidão; de rosários de orações pelos entes queridos que se foram. Todos os Santos. Crisântemos são as flores que alegram o sofrimento das ausências.

M. Fa. R. (17.03.2009)

20091001

Outubro



Em Outubro, as folhas das árvores ficam multicolores e caem … e caem as castanhas ao abrir dos ouriços. Já não há andorinhas nos beirais. A vida entra num ciclo de decadência. O tempo é cinzento; cheira a frio e a vento, que nos faz enrolar nos cobertores. E chove. Os chapéus-de-chuva viram-se do avesso, num misto de bonito e feio.

M. Fa. R. (17.03.2009)

Adenda em 01.10.2009:
Gosto de ficar sentada a olhar para as folhas do parreiral a cair, embaladas (as folhas e eu) pela brisa morna da tarde... um sinal de que tudo tem o seu tempo; e de que há um tempo para tudo.

20090914

Setembro


Setembro traz as cores quentes do Outono e o regresso à escola. Traz a despedida do Verão e a nostalgia ao coração. Já traz chuva, e com ela, o cheiro agradável a terra molhada; mas não a suficiente para evitar que as fontes possam secar. É tempo afadigado de cortar o arroz; e tempo alegre de vindimar.

M. Fa. R. (17.03.2009)

20090903

Grito


[Edward Munch, O Grito]

Grito
Mas só me responde o eco.
Depois faço silêncio
Na escuridão.
Os sons abafados dos pensamentos
Surgem então como lamentos
Neste beco sem saída
Onde não sei ser chegada
Nem ponto de partida
Mas antes encruzilhada
De encontros
Desencontros
Desencantos
Ausências
Prantos…
Mas, ainda assim,
Vida.
É bebida de absinto
Que faz de mim labirinto
Charneca de desenganos
Claustros murados
Profanos
Um mundo de turbilhões
Ruelas de dor
Desalento
Velas rasgadas ao vento
Que sopra desilusões.
E grito
Mas só me responde o eco.

(08.08.2009)

Poema também editado em: Porosidade Etérea em 09.09.2009

20090802

Agosto


Agosto tem trinta dias e mais um roubado a Fevereiro. Diz que é mês de azar. Mas o que há no mês inteiro é calor, festas e amor. Os noivos vão casar; os namorados passear; e todo o mundo desfrutar das merecidas férias. Praia, mar, lazer, prazer… e luar. É mês de namorar e descansar; de procurar sombras refrescantes, regatos murmurantes, e momentos escaldantes; há sempre um ou outro par que se alheia do mundo para se beijar.

M. Fa. R. (17.03.2009)

20090710

Julho


Chris Wake, Le Danse (After Matisse)

Julho é o mês [do sangue] de Jesus. E das colheitas, das eiras, e de arrecadar no celeiro, a fim de ter pão para comer o ano inteiro. Há sol e abelhas com fartura; pelo que não é de descurar protecção à altura! Miúdos e graúdos absorvem a luz que se reflecte em si; e tudo é algazarra e alegria nos seus trinta e um dias.

M. Fa. R. (17.03.2009)

20090626

A Solidão



Sentir-se rejeitado
Olhar-se mal amado
E pensar em si a culpa, o pecado

Mas não ler no peito a causa, o motivo
De não haver ninguém consigo
Alguém onde chorar, um ombro amigo

Tristeza, penas, abandono
Perde-se a alegria de viver
A alma adoece
E o rosto desvanece
Na vida amargo sono
De uma noite que não quer amanhecer

Quando a amizade é apenas utopia
E o amor unicamente uma ilusão
Sufocam emoções em negro dia
Como um arrocho enforcando o coração

É um olhar que nunca acontece
É um sorriso que tarda em chegar
É um verbo que sofre negação
É uma dor que te cobre como um manto
E transforma o teu rio em mar de pranto
E te assombra esse fantasma, a solidão

Mas se dela desprenderes o olhar
E granjeares uma réstia de luar
Nem tudo está perdido, podes crer
Segura firme a chama que alumia
Pois dentro de ti tens o poder
De transformar a noite em pleno dia

(22.09.2008)

Publicado na Antologia "Entre o Sono e o Sonho" (25.07.2009)


Foto de Jorge Soares

Foto e Poema publicados em:
Momentos e Olhares (12.08.2009)
Intervalo para Café (29.09.2011)

Obrigada, Jorge!

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