20091217

Dezembro



Dezembro é Natal. É frio, é Inverno, é neve: tudo é branco. Até parece que gelam as estrelas. Os dias são pequenos e também cheios de chuva. Mas depois do Natal os dias já começam a crescer. E chega o fim do ano num repente. E deseja-se cada vez mais o tempo quente.

M. Fa. R. (17.03.2009)

Feliz Natal!

20091204

Que se faça Natal


(Foto de Marat Sirotjukov)

Vem aí o Natal.
Dezembro, mês do frio… muito frio!
A cada dia que passa, a tristeza e a revolta invadem-me mais a alma, são o meu pão de cada dia. Imagino as mesas postas, com toalhas alegres e coloridas, cheias de doces, filhoses e outros fritos polvilhados de açúcar e canela. Mesas fartas de saborosos petiscos e carnes variadas. Crianças a correrem pela casa, com os sorrisos alegres de quem nada lhes falta. Elas sabem que as prendas já estão à sua espera, dentro dos embrulhos atados com os laços prateados e dourados. Em cada lareira crepita um lume aconchegante que aquece lares e corações.
E eu… eu passo por um período difícil na minha vida, que nunca pensei possível de me vir a acontecer. Sinto-me impotente para sair deste mundo cada vez mais ruinoso, à beirinha de cair num poço sem fundo. Já perdi tudo o que era possível perder, até a dignidade.

Eu também tive uma família na qual punha todo o meu orgulho. Linda, harmoniosa, que dava gosto de se ver, até ao dia em que a adversidade me bateu à porta e me foi, aos poucos, deixando na rua da amargura.
Vi o sol a desaparecer do meu dia e este precipitar-se numa noite sem fim, quando os primeiros raios da crise deram o seu sinal, numa casa onde nunca tinha faltado nada. E tudo o que tinha vindo a construir, com todo o empenho, se foi desmoronando como um castelo de cartas.

Os meus fantasmas atormentam-me continuamente. Foi o meu desemprego inesperado e algum tempo depois a falência da pequena empresa da família.
Como é que se pagavam as prestações dos carros, da casa, da mobília? Tudo teve que ser vendido, por muito menos de metade do preço de compra original, para pagar as dívidas, e não chegou. O cartão de crédito foi gasto até ao limite. Em vez de uma casa, passou a ser um quarto alugado para dois adultos e duas crianças. As crianças começaram a ir muitas vezes para a escola sem pequeno-almoço e sem nada para o lanche, quando não sobrava nada para lhes dar de comer. E aconteceu a ruptura familiar, pois “em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. E as crianças foram levadas para uma Instituição porque estavam em risco.

Dizem que uma grande dor sozinha mata menos do que muitas mais pequenas. Não sei, mas talvez... porque as facadas que me têm sido sucessivamente espetadas, me levaram a ir definhando lentamente até que, um dia destes, tudo se poderá vir a consumar definitivamente, por aí, numa qualquer sarjeta.

Agora só a miséria mora comigo, ou eu com ela. Eu sou este corpo à espera de uma qualquer cama ou canto onde afogue a pobreza, onde esqueça as cores gélidas de um frio que se me entranhou nas carnes já decepadas de um espírito que um dia foi luminoso, para ser, em cada dia, protagonista num espectáculo da fome.

E é sempre a mesma coisa todos os anos por esta altura. Lembra-se muito os pobres, dá-se umas esmolas aos pobrezinhos, uns caldos, umas sopas de Natal e depois cada um vai à sua vida até ao ano seguinte, porque já descarregaram a consciência. Como se o pobre só comesse uma vez por ano! Será isto espírito de Natal?
Eu sempre ouvi dizer que Natal é quando o Homem quiser. Mas se calhar, é só mesmo quando o Homem quiser!
Por isso é que os que tem o grande poder, capaz de reverter as condições das pessoas como eu, de vez em quando juntam-se para trocarem impressões sobre assuntos relacionados com pobreza… mas ficam-se pelos discursos e pelas jantaradas obscenas onde isso se discute, com os media a dar cobertura.
Queria que essa comida lhes soubesse a podre e a vomitassem em vez das palavras gastas!
Neste Natal, queria que a pobreza lhes entrasse por todos os orifícios do corpo... por todos os poros da pele.
Talvez que assim tivessem a real percepção do que é a pobreza... e compreendessem um pouco da verdadeira dimensão do Natal.

(M. Fa. R. - 04.12.2008)

20091121

O que dói



- Amooor, chega aqui!

- Que aflição é essa, homem?

- Oh amor, onde é que estiveste tanto tempo?

- Ora, já te fiz falta?

- Não sabia de ti… e perguntar não ofende.

- Sabes que não gosto que me controles!

- Ui! Gosto tanto quando te irritas!

- És um chato...

- Vá lá, chega cá...

- Que foi agora?

- Hum! Estás coradinha… cheirosinha… e, apetitosamente, és minha.

- Eu sei que sim.

- Mas que arisca que te finges… ou é da minha vista?

- Pois… tua sou, mas sou mais eu!

- Olha, estás a ficar muito cheia de ti!

- Não, enganas-te, estou cheia de ti!

- Que disseste?

- Que se amanhã não chover, vai ser um dia bonito.

- Mas o que é que tens? Não te estou a entender.

- Mas a verdade há-de vir à luz… vais só ver!

- A verdade, amor, é que vai doer.

- Sim, amor… mais do que amar, dói viver.


M. Fa. R. (18.11.2009)

20091101

Novembro


Adriana Saez Paredes, Crisantemos

Em Novembro, o São Martinho: castanhas e vinho. E lume. E chá quente. Pois, frio. Geada. Roupa mais quente e aconchegada.
Mês de saudade e solidão; de rosários de orações pelos entes queridos que se foram. Todos os Santos. Crisântemos são as flores que alegram o sofrimento das ausências.

M. Fa. R. (17.03.2009)

20091001

Outubro



Em Outubro, as folhas das árvores ficam multicolores e caem … e caem as castanhas ao abrir dos ouriços. Já não há andorinhas nos beirais. A vida entra num ciclo de decadência. O tempo é cinzento; cheira a frio e a vento, que nos faz enrolar nos cobertores. E chove. Os chapéus-de-chuva viram-se do avesso, num misto de bonito e feio.

M. Fa. R. (17.03.2009)

Adenda em 01.10.2009:
Gosto de ficar sentada a olhar para as folhas do parreiral a cair, embaladas (as folhas e eu) pela brisa morna da tarde... um sinal de que tudo tem o seu tempo; e de que há um tempo para tudo.

20090914

Setembro


Setembro traz as cores quentes do Outono e o regresso à escola. Traz a despedida do Verão e a nostalgia ao coração. Já traz chuva, e com ela, o cheiro agradável a terra molhada; mas não a suficiente para evitar que as fontes possam secar. É tempo afadigado de cortar o arroz; e tempo alegre de vindimar.

M. Fa. R. (17.03.2009)

20090903

Grito


[Edward Munch, O Grito]

Grito
Mas só me responde o eco.
Depois faço silêncio
Na escuridão.
Os sons abafados dos pensamentos
Surgem então como lamentos
Neste beco sem saída
Onde não sei ser chegada
Nem ponto de partida
Mas antes encruzilhada
De encontros
Desencontros
Desencantos
Ausências
Prantos…
Mas, ainda assim,
Vida.
É bebida de absinto
Que faz de mim labirinto
Charneca de desenganos
Claustros murados
Profanos
Um mundo de turbilhões
Ruelas de dor
Desalento
Velas rasgadas ao vento
Que sopra desilusões.
E grito
Mas só me responde o eco.

(08.08.2009)

Poema também editado em: Porosidade Etérea em 09.09.2009

20090802

Agosto


Agosto tem trinta dias e mais um roubado a Fevereiro. Diz que é mês de azar. Mas o que há no mês inteiro é calor, festas e amor. Os noivos vão casar; os namorados passear; e todo o mundo desfrutar das merecidas férias. Praia, mar, lazer, prazer… e luar. É mês de namorar e descansar; de procurar sombras refrescantes, regatos murmurantes, e momentos escaldantes; há sempre um ou outro par que se alheia do mundo para se beijar.

M. Fa. R. (17.03.2009)

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