20100322

Luar



Sim, eu sei como o sol faz brilhar a lua cheia!
Não, não é disso que eu falo…
Era uma lua banhada de luz estonteante. Uma lua hidratada de cosmos, irradiando raios multicolores. Escreveu nela um arco-íris em manhã de primavera, soletrando pétalas de alfazema e de jasmim. E a voz do vento sussurrou-lhe poemas de calor e de esperança num mundo melhor. Mas vieram marés negras de ondas alterosas que galgaram dunas e lhe desfizeram pontões em guerras de alecrim e manjerona. Doeu o fundo do mar. Cantou a sereia e fez chorar. Chegou até ela o grito da natureza que lhe abalou os corais, mas resistiu e redesenhou o luar.

(M. Fa. R. - 09.01.2010)

20100218

O ódio e o amor



Cinquenta dias e uma hora depois de desafortunado lançamento que tanto pó levantou, eis que o senhor se dispôs a interpelar o autor da tragicomédia, mas sem se fazer anunciar nem por estrondosos trovões a ralhar, nem fazendo cair o céu à terra do meio daquela nuvem negra de pó que ainda não tinha assentado, mas apenas levemente num breve sussurro ao ouvido, Depois de velho perdeste o resto do pudor e o senso, ao que o interpelado, um tanto atrapalhado e aturdido, mas percebendo que voz era aquela que lhe falava e decidido a fazer-lhe frente, fez-se muito convencido de si, ainda que respondesse a seu modo meio atado, E que deus és tu que para enaltecer abel desprezas caim, Eu sou aquele que sou, que era, que está e que há-de vir, apontando-lhe com o dedo em riste, ouviste, enalteci abel, sim, mas não desprezei caim, antes o procurei reabilitar e avisar para não seguir aquele caminho de perdição, e tu porque tomas o partido de um assassino que mata o irmão, Ora, tu és um deus cruel, invejoso, insuportável que vens aqui atormentar-me a razão que é a minha moral, és um inútil que se esconde num manual de maus costumes, um catálogo de crueldade, do pior da natureza humana, que antes dos sete dias que durou a tua obra criadora não fizeste nada e depois disso nada mais fizeste. Perante esta dureza de coração do seu interlocutor, deus procura fazê-lo ver, Não, eu sou o senhor, um deus de amor, porque me nutres tu ódio de morte, por que estás irado, quando grande é o teu pecado e é imenso o clamor que chega até mim, eu desci para ver se as tuas obras correspondem realmente a esse clamor e estou a ver que sim, semeaste a difamação no meio de meu povo, quando lhe vendeste um mundo novo desenhado pelas tuas profanas mãos, agora só te poderá valer o poder da oração que por ti farão. Não havia mais nada a dizer. O escritor ficou baço e o senhor desapareceu antes que este desse um passo.

(M. Fa. R. - 16.12.2009)

20100201

Fevereiro



Fevereiro parece que não é um mês inteiro. Tem vinte e oito dias, mas de quatro em quatro anos tem um dia a mais. É o mês que vem acertar o tempo. É o mais curto, mas nem por isso deixa de fazer das suas: traz chuva e neve; e Carnaval! Ainda assim, dá para as mais variadas sementeiras; e para as mais garridas e concorridas asneiras.

M. Fa. R. (17.03.2009)

20100113

Lado Certo


Imagem: Obama the Messiah

O mundo, hoje, nasceu-me virado ao contrário – acordei nessa nítida sensação.
Preciso de vir, novamente, derramar do meu carma nestas folhas amigas que me entendem, e que mais ninguém conhece, numa tentativa de expurgar os meus erros, apurar o meu saldo.
Fui obrigado a quebrar a minha primeira promessa e agora há quem me acuse de vendedor de ilusões e, até mesmo, de presidente falhado.
Não me deu a paz o Nobel.
Sou obrigado a admitir que recebi uma herança demasiado obesa; tão ou mais do que as palavras que me fizeram deus: “Yes, we can!”.
Encerrar Guantánamo não é assim tão fácil como pensei e prometi; é assunto demasiado pesado para ser resolvido da noite para o dia. Agora percebo que só miraculosamente não seria adiado, quando o maior obstáculo está no julgamento dos detidos e no seu repatriamento. Todavia, em público, não me mostrei desapontado com isso, pois tenho de continuar a ser o messias esperado. Falei e disse que este encerramento é algo tecnicamente difícil e que nos EUA ainda existem várias resistências: “As pessoas, penso que de forma compreensível, têm medo, depois de vários anos em que lhes foi dito que Guantánamo era crítico para manter os terroristas”.
O mundo, hoje, nasceu-me virado ao contrário, mas sinto que lhe dei a volta de modo fascinoso, que de uma maneira simples e convincente, com todo o meu empenho e eloquência, consegui passar uma mensagem credível, para que o mundo não deixe de acreditar em mim e sinta que irei concretizar a minha promessa. Sim, essa será uma realidade: Guantánamo irá ser encerrado no próximo ano. Preciso é de me convencer a mim próprio. E, amanhã, o mundo nascerá do lado certo. Estou certo que: do meu!

(M. Fa. R. - 24.11.2009)

20100107

Pessoa [s]em Máscara


Pintura de Norberto Nunes

Poeta plural, desdobrado em diferentes identidades ou máscaras e, por conseguinte, em diferentes escritas com diferentes características, Fernando Pessoa é um escritor modernista português, nascido em Lisboa a 13 de Junho de 1988, de enorme valor da nossa literatura e da literatura mundial. As palavras são-lhe a vida.
E: Gostaria de começar por lhe perguntar porque é que se desdobra em diferentes personalidades ou heterónimos.
F P: Tenho um problema que é o de não me conseguir encontrar. Por isso, sou um ser fragmentado, com várias sensibilidades e realidades que coexistem em mim e comigo.
E: Podemos entender que, conforme as suas emoções do momento, assim adopta uma identidade diferente - ortónimo ou heterónimos?
F P: Antes de mais, sou um fingidor, um racional, distanciado de emoções…
E: É assim que decifra esse seu enigma de ser?
F P: Eu não sou! Eu sou um sonho de ser. Mesmo olhando-me a um espelho de águas paradas não me vejo a mim. Só vejo cansaço, inquietação, frenesim. Fragmentos.
E: Essa é a sua verdade!...
F P: A verdade é impossível de alcançar. Procuro-a incessantemente e sei que nunca a irei encontrar. Estilhaço-me, mas em vão… nem assim consigo pensar tudo, fazer tudo ou descobrir tudo o que quero. O mundo está inundado de coisas inatingíveis que não sei se são vontades ou pensamentos.
E: Então o que há a fazer?
F P: Agarrar a vida, o amor… não passar pela vida sem a viver condignamente. A vida de facilidades não é verdadeira vida. Os problemas da vida ajudam-nos a crescer.
E: Quer deixar-nos algumas palavras ou mensagem para 2010?
F P: Não lutes contra o que não pode ser de maneira diferente. Rodeia-te de coisas boas. “Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada.”

(M. Fa. R. - 28.12.2009)

20091217

Dezembro



Dezembro é Natal. É frio, é Inverno, é neve: tudo é branco. Até parece que gelam as estrelas. Os dias são pequenos e também cheios de chuva. Mas depois do Natal os dias já começam a crescer. E chega o fim do ano num repente. E deseja-se cada vez mais o tempo quente.

M. Fa. R. (17.03.2009)

Feliz Natal!

20091204

Que se faça Natal


(Foto de Marat Sirotjukov)

Vem aí o Natal.
Dezembro, mês do frio… muito frio!
A cada dia que passa, a tristeza e a revolta invadem-me mais a alma, são o meu pão de cada dia. Imagino as mesas postas, com toalhas alegres e coloridas, cheias de doces, filhoses e outros fritos polvilhados de açúcar e canela. Mesas fartas de saborosos petiscos e carnes variadas. Crianças a correrem pela casa, com os sorrisos alegres de quem nada lhes falta. Elas sabem que as prendas já estão à sua espera, dentro dos embrulhos atados com os laços prateados e dourados. Em cada lareira crepita um lume aconchegante que aquece lares e corações.
E eu… eu passo por um período difícil na minha vida, que nunca pensei possível de me vir a acontecer. Sinto-me impotente para sair deste mundo cada vez mais ruinoso, à beirinha de cair num poço sem fundo. Já perdi tudo o que era possível perder, até a dignidade.

Eu também tive uma família na qual punha todo o meu orgulho. Linda, harmoniosa, que dava gosto de se ver, até ao dia em que a adversidade me bateu à porta e me foi, aos poucos, deixando na rua da amargura.
Vi o sol a desaparecer do meu dia e este precipitar-se numa noite sem fim, quando os primeiros raios da crise deram o seu sinal, numa casa onde nunca tinha faltado nada. E tudo o que tinha vindo a construir, com todo o empenho, se foi desmoronando como um castelo de cartas.

Os meus fantasmas atormentam-me continuamente. Foi o meu desemprego inesperado e algum tempo depois a falência da pequena empresa da família.
Como é que se pagavam as prestações dos carros, da casa, da mobília? Tudo teve que ser vendido, por muito menos de metade do preço de compra original, para pagar as dívidas, e não chegou. O cartão de crédito foi gasto até ao limite. Em vez de uma casa, passou a ser um quarto alugado para dois adultos e duas crianças. As crianças começaram a ir muitas vezes para a escola sem pequeno-almoço e sem nada para o lanche, quando não sobrava nada para lhes dar de comer. E aconteceu a ruptura familiar, pois “em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. E as crianças foram levadas para uma Instituição porque estavam em risco.

Dizem que uma grande dor sozinha mata menos do que muitas mais pequenas. Não sei, mas talvez... porque as facadas que me têm sido sucessivamente espetadas, me levaram a ir definhando lentamente até que, um dia destes, tudo se poderá vir a consumar definitivamente, por aí, numa qualquer sarjeta.

Agora só a miséria mora comigo, ou eu com ela. Eu sou este corpo à espera de uma qualquer cama ou canto onde afogue a pobreza, onde esqueça as cores gélidas de um frio que se me entranhou nas carnes já decepadas de um espírito que um dia foi luminoso, para ser, em cada dia, protagonista num espectáculo da fome.

E é sempre a mesma coisa todos os anos por esta altura. Lembra-se muito os pobres, dá-se umas esmolas aos pobrezinhos, uns caldos, umas sopas de Natal e depois cada um vai à sua vida até ao ano seguinte, porque já descarregaram a consciência. Como se o pobre só comesse uma vez por ano! Será isto espírito de Natal?
Eu sempre ouvi dizer que Natal é quando o Homem quiser. Mas se calhar, é só mesmo quando o Homem quiser!
Por isso é que os que tem o grande poder, capaz de reverter as condições das pessoas como eu, de vez em quando juntam-se para trocarem impressões sobre assuntos relacionados com pobreza… mas ficam-se pelos discursos e pelas jantaradas obscenas onde isso se discute, com os media a dar cobertura.
Queria que essa comida lhes soubesse a podre e a vomitassem em vez das palavras gastas!
Neste Natal, queria que a pobreza lhes entrasse por todos os orifícios do corpo... por todos os poros da pele.
Talvez que assim tivessem a real percepção do que é a pobreza... e compreendessem um pouco da verdadeira dimensão do Natal.

(M. Fa. R. - 04.12.2008)

20091121

O que dói



- Amooor, chega aqui!

- Que aflição é essa, homem?

- Oh amor, onde é que estiveste tanto tempo?

- Ora, já te fiz falta?

- Não sabia de ti… e perguntar não ofende.

- Sabes que não gosto que me controles!

- Ui! Gosto tanto quando te irritas!

- És um chato...

- Vá lá, chega cá...

- Que foi agora?

- Hum! Estás coradinha… cheirosinha… e, apetitosamente, és minha.

- Eu sei que sim.

- Mas que arisca que te finges… ou é da minha vista?

- Pois… tua sou, mas sou mais eu!

- Olha, estás a ficar muito cheia de ti!

- Não, enganas-te, estou cheia de ti!

- Que disseste?

- Que se amanhã não chover, vai ser um dia bonito.

- Mas o que é que tens? Não te estou a entender.

- Mas a verdade há-de vir à luz… vais só ver!

- A verdade, amor, é que vai doer.

- Sim, amor… mais do que amar, dói viver.


M. Fa. R. (18.11.2009)

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