20100607

Das ovelhas não reza a estória - versão II - ou Uma estória de chacais



Ah, como eu gosto deles!
Não. Não e não!
Não sei nada.
Já não enxergo nada de nada.
Tudo o que antes me fascinava morreu.
Só uma alcateia de chacais me traz cativa.
Como tudo neles é belo!
Até se me afigura ficção!
Os seus olhos reflectem a luz do sol em raios de serenidade.
E harmonia.
E das suas vozes soltam-se arco-íris em bolas de sabão!
Ah, e então, até se quedam mudas as avezinhas ao ouvi-los uivar,
E se inclinam reverentes os verdes trigais ao vê-los atravessar!
Mas lembra-me desistir…
Uma dor sobrevoa-me as notas musicais
E não me deixa cantar tudo o que me morre na garganta.
É como uma sombra que me desfaz os acordes
E os tolhe de se expressarem em flor,
Em amor, em luz, em ilusão, em alimento.
Sim, é uma dor que se mistura com um grito e o seca.
Dor, angústia, revolta…
Então, não é que anda aí uma desmesurada corrosão
Em relvados que se enchem de buracos
E se vestem de degradação?!
É que é quase obsceno algum ódio de estimação!
Sugere-me uma sorte de castração…
Como se alguém que cala mais alto!
E ninguém entende a minha quietação,
O mutismo que estou a sentir!
É muito, mas hei-de singrar e mandá-los ganir!

(M.Fa.R. - 26.05.2010)

20100527

Das ovelhas não reza a estória



Ah, como eu gosto deles!
Não. Não e não!
Não sei nada.
Já não enxergo nada de nada.
Tudo o que antes me fascinava morreu.
Só os meus pastores de eleição me trazem cativa.
Como tudo neles é belo!
Até parece ficção!
Os seus olhos irradiam a luz do sol em raios de serenidade.
E paz.
E das suas vozes soltam-se arco-íris em bolas de sabão!
Ah, e então, até se quedam mudos os passarinhos ao ouvi-los cantar,
E se inclinam murchos os verdes prados quando os vêem passar!
Mas apetece-me desistir…
Uma dor sobrevoa-me as palavras
E não me deixa declarar tudo o que me morre na garganta.
É como uma sombra que me desfaz o verbo
E o tolhe de se expressar em flor,
Em amor, em luz, em ilusão, em pão.
Sim, é uma dor que se mistura com um grito e o seca.
Dor, angústia, revolta…
Então, não é que há por aí uma desmesurada corrosão
Em campos que perdem encantos
E se vestem de prantos?!
É que é quase obsceno algum ódio de estimação!
Parece que há como que uma castração…
Como se alguém que cala mais alto!
E ninguém percebe a minha aflição!
Tanta, que só me apetece dizer-lhes:
Vão dar banho ao cão!

(M.Fa.R. - 21.05.2010)

20100510

Assunto: Demissão de Deus




Um pedido de demissão de Deus é coisa que não lembra ao diabo. Mesmo estando esta Humanidade, definitivamente, desorientada. Talvez, perdida, num mundo infestado de demónios. Quem sabe se a demissão de Deus não seria o que alguns quisessem, para depois poderem fazer tudo, mas tudo, o que bem (ou de mal) entendessem?! A estupidez humana não tem limites; e a irracionalidade é como uma doença que se apoderou dos Homens, que os turva de enxergar mais longe, mais Além do seu limitado horizonte.
Pois bem! Eu, Aquele que É, que sempre Foi, e que Está para voltar quando a pertinência chegar, mando dar a conhecer a toda a comunidade dos Homens que assim como fizerem, assim encontrarão.
Coloquei a liberdade nas suas mãos para que dela façam o uso que lhes aprouver. Mas eles, como animais que são, descendentes de animais, a nada mais parecem aspirar do que como animais viverem. É certo que nem todos. Há os que assim se dispõem, outros que se perdem por esquemas, e muitos outros que são vítimas dos sistemas. E também alguns ainda há, que são pequenos como crianças, que ainda têm almas puras e mansas. Não há uma só face: enquanto uma face da lua é negra, outra alumia na escuridão. Umas vezes em minguante, mas outras em crescente ou cheia da luz mais brilhante. Mesmo fazendo com que sombras se adensem. E pelo meio, milagres que ainda acontecem.
Mas porque há quem prefira as sombras, os disparates sucedem-se…
Ah, humanidade corrompida que queres ser maior do que Deus, substituir-te a Deus!
Homens de fé desairada, que não precisais mais de Deus, que prescindis de Mim, interiorizai bem isto aqui, assim: Eu, Aquele que É, que sempre Foi, e que Está para voltar quando a pertinência chegar, obviamente, e porque outra coisa não seria de esperar, demito-Me... de Me demitir! Digo e afirmo-vos isso, Eu, o Único que Sou o Princípio e o Fim!

(M. Fa. R. - 06.05.2010)

20100406

Sem Dedicatórias


Pablo Picasso, Visage De La Paix (Serigraph)

(...) A alguém que corta as asas a uma pequena ave, que ensaia os primeiros voos, é-se desobrigado de dedicatórias.

Quero acreditar que não o terão feito por mal. O que não aceito é que sempre se vangloriassem desse facto, como se o tivessem feito com a melhor das intenções. Mas não são as boas e as más intenções que contam para as estatísticas, só os actos concretos. E há actos concretos que resultam de intenções inconscientes, saídas de atitudes assumidas, de religiões ou filosofias de vida. O corte das minhas asas foi uma mutilação genital. Um acto, não de pura maldade, mas de maldade pura. Uma maldade como se faz às galinhas, quando se lhes cortam as penas das asas, para que elas não voem por cima do muro, para as manter sempre no lugar a que pertencem – a capoeira; para que não se aventurem por outros lugares e se percam neles; para que não cruzem outros mundos e se afastem dos donos. Como pode voar uma ave de asas cortadas?!

No entanto eu voei. Unicamente por mérito próprio, voei. Colei as asas e voei (mesmo podendo talvez haver quem não tenha visto isso com bons olhos). Tarde, é certo, mas voei… voo. Apesar de todas as contrariedades: asas que tive de saber colar; ventos que tive de amainar; tempestades que teimaram em me amedrontar; calor escaldante que tive de arrefecer; frio cortante que tive de ignorar; florestas que tive de desbravar; desertos que tive de regar; uma infinidade de horas e dias e anos e sonos que tive de me roubar. Voei. Um voo incerto, inseguro, mas que tem adquirido cada vez mais consistência. Um voo que foi uma das coisas mais belas de que pude desfrutar.

Mais do que a meta que o voo pretenda alcançar, é o caminho percorrido, o céu explorado, o melhor da jornada.

A minha alma sente gratidão por me distinguirem no voo, por entre tantas outras aves que brilham ao sol; a mim, uma pequena ave de asas coladas.

(M. Fa. R. - 04.01.2010)

20100322

Luar



Sim, eu sei como o sol faz brilhar a lua cheia!
Não, não é disso que eu falo…
Era uma lua banhada de luz estonteante. Uma lua hidratada de cosmos, irradiando raios multicolores. Escreveu nela um arco-íris em manhã de primavera, soletrando pétalas de alfazema e de jasmim. E a voz do vento sussurrou-lhe poemas de calor e de esperança num mundo melhor. Mas vieram marés negras de ondas alterosas que galgaram dunas e lhe desfizeram pontões em guerras de alecrim e manjerona. Doeu o fundo do mar. Cantou a sereia e fez chorar. Chegou até ela o grito da natureza que lhe abalou os corais, mas resistiu e redesenhou o luar.

(M. Fa. R. - 09.01.2010)

20100218

O ódio e o amor



Cinquenta dias e uma hora depois de desafortunado lançamento que tanto pó levantou, eis que o senhor se dispôs a interpelar o autor da tragicomédia, mas sem se fazer anunciar nem por estrondosos trovões a ralhar, nem fazendo cair o céu à terra do meio daquela nuvem negra de pó que ainda não tinha assentado, mas apenas levemente num breve sussurro ao ouvido, Depois de velho perdeste o resto do pudor e o senso, ao que o interpelado, um tanto atrapalhado e aturdido, mas percebendo que voz era aquela que lhe falava e decidido a fazer-lhe frente, fez-se muito convencido de si, ainda que respondesse a seu modo meio atado, E que deus és tu que para enaltecer abel desprezas caim, Eu sou aquele que sou, que era, que está e que há-de vir, apontando-lhe com o dedo em riste, ouviste, enalteci abel, sim, mas não desprezei caim, antes o procurei reabilitar e avisar para não seguir aquele caminho de perdição, e tu porque tomas o partido de um assassino que mata o irmão, Ora, tu és um deus cruel, invejoso, insuportável que vens aqui atormentar-me a razão que é a minha moral, és um inútil que se esconde num manual de maus costumes, um catálogo de crueldade, do pior da natureza humana, que antes dos sete dias que durou a tua obra criadora não fizeste nada e depois disso nada mais fizeste. Perante esta dureza de coração do seu interlocutor, deus procura fazê-lo ver, Não, eu sou o senhor, um deus de amor, porque me nutres tu ódio de morte, por que estás irado, quando grande é o teu pecado e é imenso o clamor que chega até mim, eu desci para ver se as tuas obras correspondem realmente a esse clamor e estou a ver que sim, semeaste a difamação no meio de meu povo, quando lhe vendeste um mundo novo desenhado pelas tuas profanas mãos, agora só te poderá valer o poder da oração que por ti farão. Não havia mais nada a dizer. O escritor ficou baço e o senhor desapareceu antes que este desse um passo.

(M. Fa. R. - 16.12.2009)

20100201

Fevereiro



Fevereiro parece que não é um mês inteiro. Tem vinte e oito dias, mas de quatro em quatro anos tem um dia a mais. É o mês que vem acertar o tempo. É o mais curto, mas nem por isso deixa de fazer das suas: traz chuva e neve; e Carnaval! Ainda assim, dá para as mais variadas sementeiras; e para as mais garridas e concorridas asneiras.

M. Fa. R. (17.03.2009)

20100113

Lado Certo


Imagem: Obama the Messiah

O mundo, hoje, nasceu-me virado ao contrário – acordei nessa nítida sensação.
Preciso de vir, novamente, derramar do meu carma nestas folhas amigas que me entendem, e que mais ninguém conhece, numa tentativa de expurgar os meus erros, apurar o meu saldo.
Fui obrigado a quebrar a minha primeira promessa e agora há quem me acuse de vendedor de ilusões e, até mesmo, de presidente falhado.
Não me deu a paz o Nobel.
Sou obrigado a admitir que recebi uma herança demasiado obesa; tão ou mais do que as palavras que me fizeram deus: “Yes, we can!”.
Encerrar Guantánamo não é assim tão fácil como pensei e prometi; é assunto demasiado pesado para ser resolvido da noite para o dia. Agora percebo que só miraculosamente não seria adiado, quando o maior obstáculo está no julgamento dos detidos e no seu repatriamento. Todavia, em público, não me mostrei desapontado com isso, pois tenho de continuar a ser o messias esperado. Falei e disse que este encerramento é algo tecnicamente difícil e que nos EUA ainda existem várias resistências: “As pessoas, penso que de forma compreensível, têm medo, depois de vários anos em que lhes foi dito que Guantánamo era crítico para manter os terroristas”.
O mundo, hoje, nasceu-me virado ao contrário, mas sinto que lhe dei a volta de modo fascinoso, que de uma maneira simples e convincente, com todo o meu empenho e eloquência, consegui passar uma mensagem credível, para que o mundo não deixe de acreditar em mim e sinta que irei concretizar a minha promessa. Sim, essa será uma realidade: Guantánamo irá ser encerrado no próximo ano. Preciso é de me convencer a mim próprio. E, amanhã, o mundo nascerá do lado certo. Estou certo que: do meu!

(M. Fa. R. - 24.11.2009)

Tons Maiores: