20100909

Estou farta de ser palhaço



Estou farta de ser palhaço
De me fecharem no circo
De me apertarem o cerco
E me taparem o sol

Estou farta de ser palhaço
De me sentir constrangida
De me saber ignorada
De me ter por mal-amada

Estou farta de ser palhaço
Estou farta de me ferir
Farta de fazer rir
E de por dentro chorar

Estou farta de ser palhaço
De riscar o céu de luar
E as nuvens de cor-de-rosa
E na volta nada trazer

Estou farta de ser palhaço
De tudo dar sem receber
Da paga sem merecer
Na noite que me fornecem

Estou farta de ser palhaço
Farta de me inventar
Farta de ser e me dar
Quando logo a seguir me esquecem

Estou farta de ser palhaço
Farta de ser mal olhada
Farta estou de ser pisada
Como boneco barato

Estou farta de ser palhaço
Palhaço de palha e cartão
A quem sacam o coração
Para assar e fritar no lume

Estou farta de ser palhaço
De afugentar os pardais
Com as roupas desbotadas
Em cima de um monte de estrume

Estou farta de ser palhaço
Das cores com que me pintam
Das dores que me provocam
Estou farta de ser palhaço

(13.08.2010)

Também publicado em Porosidade Etérea

20100827

Voar é o limite


De Pablo PICASSO - Visage de la Paix

Quando motivação é palavra de ordem não há pedras no caminho que se não chutem para o lado, amarras que se não quebrem, barreiras que não se pulem.
Quando a motivação abunda, mesmo que a vontade voe nas alturas pelo azul dos céus acabará por sobrevoar o azul dos olhos. Azul: a cor dos meus. Que se não fosse, outra cor seria na mesma para sobrevoar.
Tenho de confessar que a minha vontade tem voado longe longe, bem junto à linha do horizonte e que só a motivação a tem puxado, com uma linha de seda quase imperceptível, para junto do olhar.
Há trilhos que se têm de desafiar, encruzilhadas que se têm de vencer, etapas que se têm de cumprir. Durante um tempo vi, escrevi, vivi… Voei! E hoje, a vontade de escreviver tornou-se premência, quando um bom motivo rasgou as redes que lhe enclausuravam as asas impedindo-as de voar ao encontro de um limite. Um limite potencial. Um limite que não me limita mas que se impõe e me dói.

(M. Fa. R. – 03.02.2010)

20100817

És boa como o milho mas eu não sou galinha



Provocas arrepios na pele. Toda tu és arrepios. Já te disseram que és boa como o milho?

Quando esta história começou nem te passava pela cabeça o rumo que ela iria tomar. Nem a mim tão-pouco. Acabámos a descer o rio em canoa. Para baixo era sempre a descer (dizem que para baixo é que é Lisboa). Mas havia rápidos que eram rápidos demais. Ai, a água que metemos! Numa curva apertada desequilibrámo-nos e virámos a canoa ao contrário. Quase te afogaste (só depois disso é que começaste a aprender a nadar) e tive de te salvar. Puxei-te para terra e fiz-te respiração boca a boca. (Que boca!). Não era preciso, disseste depois, mas gostaste, que eu bem percebi quando as nossas línguas aguaram. Foi, então, a minha vez de quase me afogar… nesse rio que escorria em ti. Mas salvei-me a tempo nas margens das tuas mãos que me seguraram.
Endireitámos, depois, a canoa e alinhámos rio abaixo, mas continuámos a meter água. A canoa avançava umas vezes aos solavancos, outras deslizando como em ringue de patinagem, e ainda outras muito à força de remar como se fosse contra a maré. E não chegámos à meta. Virámos para um afluente magro e barrento e saímos a poucos metros, porque se tornava impraticável a navegação, ficando enlameados e exaustos. Foi quase o salve-se quem puder, com um a escorregar daqui, outro a puxar dacolá… tentando trepar a margem. E eu já nem a mim me segurava, quanto mais a ti! Terminámos a aventura no chão, espalhados ao comprido!
Descansámos, enfim, sujos e perdidos, na terra cultivada de milheiros verdes e altos, que nos engoliam. As barbas tombavam das espigas tenras, como convite a serem desfolhadas. Dizem que o milho verde é bom para comer, e a fome até era mais do que muita, mas o cansaço venceu-me e adormeci na sombra daquele milheiral, com o sol a espreitar pelas frestas.
Acordei sozinho já o sol descaía. Ergui-me e procurei-te com os olhos, mas tinhas desaparecido. Ali perto, vi uma casa de quinta para onde me dirigi e lá me esperavas com um sorriso de orelha a orelha. Estavas melhor do que eu, lavada e reconfortada. E eu nada!
Aceitei um duche e uma velha camisola, e depois, esfomeado, não me fiz rogado ao pão de centeio e marmelada, que era o que havia – desculparam-se os donos da casa.
– Oh, oh! Delicioso!
Pois não! Burro com fome, cardos come! E o que é doce nunca amargou! (Quer dizer: nem tudo! Há doces que deixam um amargo na boca: tu.)
Pedi depois para telefonar a quem nos viesse buscar. Quando chegou a boleia, agradeci a hospitalidade e fomos. E a canoa seguiu viagem, não rio abaixo, mas camioneta acima.
Chegados ao destino, cada um foi à sua vida. E cada vida tomou o seu caminho.

E caímos num impasse: nem tu me ligavas, nem eu te esquecia. Até chegar o dia em que dei por mim, com insistência, a evocar aquele milheiral verde e em como és boa como o milho, e eu que não fui nem sou galinha!
Pois bem, mas não me importei de passar por galo e tentar! Se não me ligavas tu, liguei eu:
– Estou?… Sara?...
– André!… que saudades!
– Cocorococó!...

(M. Fa. R. - 16.07.2010)

20100727

Presença



Acabou por se levantar a custo da noite mal dormida, de cabeça pesada e de olhos colados pela manhã de sono que o dia lhe vinha roubar. A cama, que lhe custara a moldar ao corpo, bem que lhe pedia agora para esperar, mas o despertador digital, que lhe sobrara na mesinha de cabeceira, acenava que não. O tempo não se compadecia com esperas.
Quão complicado de rodar a surpreendia, tantas vezes, o filme da vida! O mundo fazia-a correr, girar, muitas das vezes, sem indicar bem para onde ir. A vida dava-lhe voltas e trocava-lhas, sem contemplações pelo que ela pudesse sentir! Só um grande amor à vida era o seu companheiro das horas insubmissas, que o mundo nunca lhe tinha conseguido tirar. Com aquele amor fazia-se de forte na fraqueza que ocasionalmente a apertava. E nunca tinha deixado perder as esperanças de que dias luminosos pudessem chegar.
Farta andava de calcorrear ruas, umas apinhadas de nada, outras vazias de tudo, outras com tudo e mais nada. Todas elas lhe sugeriam, pediam até, que era preciso ainda mais amar. E os sonhos sempre lhe voaram em liberdade. Eram gaivotas que não tinha deixado meter na prisão.
Por isso, não, não podia dormir quando a justiça social se faz ausente.

(M.Fa.R. - 14.05.2010)

20100713

Noite de Verão



As noites de Verão
Também trazem solidão
Resquícios de sofrimento
Águas que gemem lamento
Sabor a sal e tormento
Aperto no coração

Nas asas de um condor
Um sonho de puro amor
Um sopro de maresia
Uma sede de infinito
Voo em forma de grito
Enquanto não nasce o dia

Noite de Verão
Entre a tarde e a manhã
Deixa leve a mágoa antiga
Deixa-me sorrir à vida
Esquece a minha dor

Noite de Verão
Entre o sol e o luar
Traz alento ao meu viver
Traz sorriso ao meu querer
E deixa-me voar

(M. Fa. R. - 26.11.2009)

20100627

Aqui há gato!



O Diabo anda à solta; mas: de noite todos os gatos são pardos. E ser advogado do Diabo é tarefa ingrata (vá-se lá defender o indefensável!). No entanto, afirmo: de noite, todos os gatos são pardos!
Ora, os gatos dão-se pelo nome de Bichos, ou Bichas, conforme o seu género. Todavia, nem à luz do dia são muito fáceis de diferenciar, quanto mais de noite, na noite em que nos querem, na qual todos os gatos são pardos. Dizem que é o diabo a sete. Mas não. É exagero. O Diabo não é um deles. É o Diabo: não se dá pelo nome de Bicho.
Os gatos, repito: de noite todos são pardos. Assim como nós, anónimos gatos de uma sociedade que se torna escura à luz do dia, onde só brilham brancos e siameses – gatos de uma raça superior. E nós, pobres diabos, temos que fazer pela vida, que só temos uma. Não somos gatos, que esses têm sete.
Será que os gatos têm mesmo sete vidas?! Talvez não. Ou talvez sim!... que alguns nunca mais se lhes vê o fim; e outros, coitados, mesmo com cada pontapé e trambolhão, mesmo sem direito a veterinário, lá vão, ainda que virados ao contrário, escapando, como podem, das tropelias que lhes fazem! Mas o Diabo tem uma vida eterna pela frente. Se assim não fosse, certamente, não teria sido o escolhido, entre outros potenciais candidatos, para o fazerem andar no meio dos bichos, digo: dos gatos.
Isto é uma grande confusão! E não, ele não é um deles! Ele não é um desses quaisquer gatos! Tem andado entre eles, é um facto, mas não é um deles, entenda-se! Ele, neste caso, está inocente!...
Aqui há gato, efectivamente! Mas não é o Diabo. Nem preto, nem pintado! É que: de noite todos os gatos são pardos. E enquanto uns vivem no inferno, para outros é só um paraíso pegado!
Parece que andam com o Diabo no corpo! Mas não é o Diabo o culpado.
O Diabo anda à solta e vai continuar a andar; se há quem traz o Diabo no corpo, a culpa não é do Diabo, mas é de quem o deixou entrar. Tenho dito!

(M.Fa.R. - 11.06.2010)

20100607

Das ovelhas não reza a estória - versão II - ou Uma estória de chacais



Ah, como eu gosto deles!
Não. Não e não!
Não sei nada.
Já não enxergo nada de nada.
Tudo o que antes me fascinava morreu.
Só uma alcateia de chacais me traz cativa.
Como tudo neles é belo!
Até se me afigura ficção!
Os seus olhos reflectem a luz do sol em raios de serenidade.
E harmonia.
E das suas vozes soltam-se arco-íris em bolas de sabão!
Ah, e então, até se quedam mudas as avezinhas ao ouvi-los uivar,
E se inclinam reverentes os verdes trigais ao vê-los atravessar!
Mas lembra-me desistir…
Uma dor sobrevoa-me as notas musicais
E não me deixa cantar tudo o que me morre na garganta.
É como uma sombra que me desfaz os acordes
E os tolhe de se expressarem em flor,
Em amor, em luz, em ilusão, em alimento.
Sim, é uma dor que se mistura com um grito e o seca.
Dor, angústia, revolta…
Então, não é que anda aí uma desmesurada corrosão
Em relvados que se enchem de buracos
E se vestem de degradação?!
É que é quase obsceno algum ódio de estimação!
Sugere-me uma sorte de castração…
Como se alguém que cala mais alto!
E ninguém entende a minha quietação,
O mutismo que estou a sentir!
É muito, mas hei-de singrar e mandá-los ganir!

(M.Fa.R. - 26.05.2010)

20100527

Das ovelhas não reza a estória



Ah, como eu gosto deles!
Não. Não e não!
Não sei nada.
Já não enxergo nada de nada.
Tudo o que antes me fascinava morreu.
Só os meus pastores de eleição me trazem cativa.
Como tudo neles é belo!
Até parece ficção!
Os seus olhos irradiam a luz do sol em raios de serenidade.
E paz.
E das suas vozes soltam-se arco-íris em bolas de sabão!
Ah, e então, até se quedam mudos os passarinhos ao ouvi-los cantar,
E se inclinam murchos os verdes prados quando os vêem passar!
Mas apetece-me desistir…
Uma dor sobrevoa-me as palavras
E não me deixa declarar tudo o que me morre na garganta.
É como uma sombra que me desfaz o verbo
E o tolhe de se expressar em flor,
Em amor, em luz, em ilusão, em pão.
Sim, é uma dor que se mistura com um grito e o seca.
Dor, angústia, revolta…
Então, não é que há por aí uma desmesurada corrosão
Em campos que perdem encantos
E se vestem de prantos?!
É que é quase obsceno algum ódio de estimação!
Parece que há como que uma castração…
Como se alguém que cala mais alto!
E ninguém percebe a minha aflição!
Tanta, que só me apetece dizer-lhes:
Vão dar banho ao cão!

(M.Fa.R. - 21.05.2010)

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