20101112

100 Palavras… ou com poucas mais



Um dia de Formação das 10 às 17 com intervalo para almoço.
Uma única janela no aconchegado gabinete com a persiana corrida. Aconchegado – bem aconchegado – para quatro pessoas; persiana corrida para tornar o ambiente adequado à projecção. Assim não me posso distrair a ver o tempo que faz lá fora.
Ainda bem que não sofro de claustrofobia!
Sorrio. Sorrimos.
Apresentamo-nos: Manuela – formadora; Carla, Maria e Ana – formandas.
Blá, blá, blá… ponho os óculos; presto atenção ao ecrã (as imagens são sugestivas); sigo todos os passos (o dia vai de corrida sem ninguém o apanhar); coloco dúvidas; respondo a questões; troco ideias e ideais… sugestões; tiro os óculos. Sorrio.
Passou a manhã.
Pausa.
Espero.
Veio a tarde.
Sorrio. Ponho os óculos. Embalo-me em mais Marketing Social e deixo-me levar. Parece que temos de usar mais a regra dos três C – a regra de ouro para que a informação que queremos passar surta o efeito desejado – ser clara, curta e concisa. Tiro os óculos.
O dia já lá vai… Ainda foi só o primeiro dia.
Sim, um novo dia de formação fica marcado.
Sorrio.
Um dia bem formado!

(M.Fa.R. - 11.10.2010)

20101103

(S)Em Dor




Procurei e encontrei a cura para a dor. E cheguei até à cura pelo coração: o coração não dói. Está provado cientificamente que o coração não dói. Sente dor mas não dói.
O que dói é o que o envolve. Por isso a dor é nervosa. E psicológica: passa pelo pensamento. A dor é nervoso-psicológica: os nervos levam-na ao cérebro – ao pensamento.
Pensar na dor faz doer.
Há, por isso, dores do cérebro, não do coração – o coração não pensa. Não pensa: não dói. Só sente dor, mas não dói. Dói o que pensa. E o que pensa é o cérebro. É, então, o cérebro que dói. Ora, se as dores são do cérebro, e se se procura a cura para a dor, essa cura passa pelo cérebro. Nada mais fácil de curar: tira-se a dor do cérebro! Como? Tira-se o cérebro.
Sem coração não se vive, que é o órgão vital do corpo.
Mas pode bem viver-se sem cérebro(!).
E, assim, jamais haverá dor.
Com o coração só no comando poder-se-á viver. E como o coração não dói, nada mais em nós poderá doer.

M. Fa. R. – 2010-07-09

20101022

Encontro de grau imediato



O “S” inconfundível espreita-lhe pela camisa aberta no peito enquanto ele chama o elevador. Este trepa, numa subida pachorrenta, até ao último piso do elefante branco. Finalmente a porta abre e ele entra, arrastando consigo a euforia de mais uma maratona de treino pelos ares:
– "Eu sou o Super-Homem, o maior da minha rua..."
O elevador inicia a descida, mas detém-se logo de seguida para dar entrada a mais uma célebre figura, de aparência embaciada, sorumbática ou, se calhar, sonolenta – era ainda madrugada:
– "Fiz tudo p´ra sobreviver, em nome da terra, no fundo p´ra te merecer."
– Oh, “encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos.” – Tenta o primeiro socorrê-lo.
O semblante baço dá lugar a um espanto incrédulo, confuso – parece ver estrelas cadentes. Apalpa ali um calor nebuloso dentro do elevador que o faz temer a proximidade daquele ser de outro mundo.
– Oh, pá... serás tu aquele que faz 10 segundos daqui até à lua?
– "Não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar."
– Chega-te para lá! – Defende-se inflamadamente.
– "Não desencantes os meus passos, faz de mim o teu herói."
Parecem cruzar-se ali os quatro elementos: move-se o ar ao encontro da terra; despeja-se o mar dos olhos de um no fogo dos olhos do outro.
– Muito bem, se me roubas as palavras, e se és mesmo esse herói, vais tratar do que tiver que ser!
– “Encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar.”
– É que “eu venho do nada porque arrasei o que não quis em nome da estrada, onde só quero ser feliz.”
– Ah, percebo – responde o Super-Homem –, ser feliz… ser feliz é o que todos querem, nem que para isso ponham o mundo num caos, e depois cá está o Super-Homem para dar a volta à questão.
– E não é para isso que és o Super-Homem? Se tens poderes sobrenaturais tens mesmo é que ajudar as pessoas.
– Pois claro, enquanto souberem que existe um Super-Homem que as pode socorrer, fiam-se nele e perdem a noção da realidade, apelando aos seus poderes sobrenaturais. Mas afinal em que queres a minha ajuda?
– “Vai desarmar a flor queimada, vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.”
– Logo vi! E isso é o quê? O Orçamento do Estado, por acaso?... Ó meu amigo, isso já lá não vai nem com um Super-herói como eu!
E mal se abre a porta do elevador já o Super-Homem desapareceu.

(M. Fa. R. - 19.10.2010)

20101014

Onde está o Pão?



Sem pão e sem amor
Sem sequer uma côdea com bolor
Que lhe caia na mão
Aos tropeções por essa vida
Sem esgar na noite entorpecida
À espera de aquecer o coração
Anda perdida qual mendigo
Muita gente em nosso mundo
Matando o ar em campo nu de trigo
Que já foi seu e que ardeu

Quem lhe roubou o seu pedaço de pão
Quem lhe sacou o coração e o pisou
Fingindo bem-fazer
Dizia que era dia e fez a noite
E continua airosamente a sussurrar
Que o pão dos outros é ateu
Que só quem o tem o mereceu
E que o dia de mais pão há-de chegar

Mas eu grito enquanto a voz não me doer
Enquanto a noite escura estiver
Enquanto eu vir ainda um pouco mais além:
Anda muito ladrão por aí com cara de gente-bem.

(29.08.2010)

Também publicado em Porosidade Etérea


Dia 16 de Outubro:
Dia Mundial da Alimentação
(este ano dedicado à fome e ao direito à alimentação)

17 de Outubro:
Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza



20100927

A vida da ti Maria Amélia dava uma história


(Imagem de autor desconhecido)

Quando a ti Maria Amélia, de manhã, ia à taberna matar o bicho com o seu copito de aguardente, costumava, muito sorrateiramente, enquanto o taberneiro estava virado para outro lado, estender o braço e meter os dedos ao tabuleiro da marmelada e levar um bocado dela para a boca para fazer peito para a pinga. É claro que o taberneiro começou a desconfiar, por ver repetidamente a marca de uns dedos onde devia ser cortado à faca, e disse para com os seus botões que a havia de tramar. Então arranjou um tabuleiro igual, meteu-lhe dentro massa consistente e, naquele dia, sabendo que ela vinha sempre por volta da mesma hora, outro tabuleiro a esperava. Ela seguiu o ritual de sempre, pagou o copito e foi-se embora sem se desmanchar, mas de garganta bem untada. Pelo caminho, diz quem a viu e ouviu, que ia sempre “arrrtffff arrrtffff, aquele Manel tem lá agora uma marmelada que sabe mesmo à m.... arrtffff”.

Pobre da Maria Amélia, com o seu corpo vestido de farrapos, e sem ter eira, nem lareira onde se aquecer, nem sequer um palmo de seu onde cair morta! O seu homem fizera-se ao Brasil, ainda novo, na busca de uma vida melhor para o filho que lhe deixava na barriga, mas por lá ficara, decerto com outra família que arranjara. O filho crescera e, por sua vez, a deixara, depois de a esvaziar de tudo quanto tinha para cumprir os vícios que o haviam espreitado. Valia-lhe a compaixão de alguns vizinhos que lhe davam algum prato de sopa, ou umas pobres moedas, ou ainda um palheiro para pernoitar.
Errante, com o sol ou a chuva, ou os cães vadios por companheiros de jornada quando, sem tir-te nem guar-te, um carro a atirou de rompante para uma berma da estrada.
Atirou e fugiu, e ninguém viu. E a pobre ali ficou estirada, inerte, sem vivalma que a socorresse. “Está bêbada, que a descabece!”
Quando um bom homem se acercou, era tarde. “Acudam, a ti Maria Amélia morreu!”

(M.Fa.R. - 02.07.2010)

20100917

Ou Remela ou Cataratas


Imagem: creativx.net

Trespassa-me um extremo mau-gosto-olhado: sabor a fel e… remela. Só me faltava mais esta agora! Bloqueio à entrada do aposento:
– Não posso acreditar no que os meus olhos vêem!
Esfrego os olhos, uma e outra vez, mas a visão fica cada vez mais enevoada. Tenho andado a adiar há tempo demais a ida ao oftalmologista, claro que só podia dar nisto! Estou a ficar cega!!!
Isto é um pesadelo: só vejo uma sardanisca velha, nua, a rebolar-se, a deixar escamas em tudo o que é meu e que me pertence por direito. Uma velha sardanisca sem sequer esconder a carcaça dentro da velha carapaça. E um sardaniscão pronto a entrar em acção.

Fechei a porta à chave e chamei uma equipa de desinfestação. E, pelo sim, pelo não, tomei a maior decisão: fazer uma visita ao oftalmologista, antes que as cataratas me toldassem de todo a visão…

(M. Fa. R. - 25.06.2010)

20100909

Estou farta de ser palhaço



Estou farta de ser palhaço
De me fecharem no circo
De me apertarem o cerco
E me taparem o sol

Estou farta de ser palhaço
De me sentir constrangida
De me saber ignorada
De me ter por mal-amada

Estou farta de ser palhaço
Estou farta de me ferir
Farta de fazer rir
E de por dentro chorar

Estou farta de ser palhaço
De riscar o céu de luar
E as nuvens de cor-de-rosa
E na volta nada trazer

Estou farta de ser palhaço
De tudo dar sem receber
Da paga sem merecer
Na noite que me fornecem

Estou farta de ser palhaço
Farta de me inventar
Farta de ser e me dar
Quando logo a seguir me esquecem

Estou farta de ser palhaço
Farta de ser mal olhada
Farta estou de ser pisada
Como boneco barato

Estou farta de ser palhaço
Palhaço de palha e cartão
A quem sacam o coração
Para assar e fritar no lume

Estou farta de ser palhaço
De afugentar os pardais
Com as roupas desbotadas
Em cima de um monte de estrume

Estou farta de ser palhaço
Das cores com que me pintam
Das dores que me provocam
Estou farta de ser palhaço

(13.08.2010)

Também publicado em Porosidade Etérea

20100827

Voar é o limite


De Pablo PICASSO - Visage de la Paix

Quando motivação é palavra de ordem não há pedras no caminho que se não chutem para o lado, amarras que se não quebrem, barreiras que não se pulem.
Quando a motivação abunda, mesmo que a vontade voe nas alturas pelo azul dos céus acabará por sobrevoar o azul dos olhos. Azul: a cor dos meus. Que se não fosse, outra cor seria na mesma para sobrevoar.
Tenho de confessar que a minha vontade tem voado longe longe, bem junto à linha do horizonte e que só a motivação a tem puxado, com uma linha de seda quase imperceptível, para junto do olhar.
Há trilhos que se têm de desafiar, encruzilhadas que se têm de vencer, etapas que se têm de cumprir. Durante um tempo vi, escrevi, vivi… Voei! E hoje, a vontade de escreviver tornou-se premência, quando um bom motivo rasgou as redes que lhe enclausuravam as asas impedindo-as de voar ao encontro de um limite. Um limite potencial. Um limite que não me limita mas que se impõe e me dói.

(M. Fa. R. – 03.02.2010)

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