20120214

Sobra tempo e falta vida



Há uma linha invisível, uma ténue fronteira entre o ontem e o hoje… (e o amanhã?); entre o conhecimento e a ignorância; entre a saúde e a doença... entre a vida e a morte.
Espero. Há um nó que me aperta o estômago.
Conto os minutos para ser atendida, mas eles arrastam-se cada vez mais lentos. Inversamente proporcional é o galope do meu coração, em ânsias de chegar à meta. Quero acabar com isto rapidamente.
Espero. E não tenho tempo para esperar.
Espero o desfecho de uma vez por todas. Espero em ânsias depressivas, corrosivas, lesivas da minha já debilitada sanidade mental.
Espero. E chove-me enquanto espero. A chuva que me escorre é porta de vai e vem. Para lá dela, o nevoeiro: o despontar da noite ou do dia - o crepúsculo ou a aurora. Quando será a minha vez?
Queria poder dizer que sou dona de mim, que quem manda em mim sou eu... e até pensava que era um pouco assim. Mas não é. Tudo o que tenho não é meu. Tudo o que penso não me cabe no pensamento. Tudo o que sinto me escapa…
Tudo o que sou, ou não sou, serve-se-me agora nas mãos. Numa carta fechada. Para quê esperar se adivinho o que ela contém? Lá dentro, o meu futuro. E o dos meus cinco filhos… mais dois gatos persas, um caniche e um papagaio.
(Oh, meu Deus!... que será deles?) Não consigo pensar. Ter-se-ão uns aos outros quando a porta se fechar.
Espero. E falta-me tempo para esperar.
A vida nunca é como a sonhamos.
E a morte é uma certeza feroz, que espreita a vida dentro de um envelope de análises.

20120125

Sopra




Enche o peito de ar
E sopra
Faz tremer as tempestades
Afronta todas as marés vivas
Prende o sol nas mãos
E brilha
Inflama o mar
Acende as cavernas negras
E aquece o ar que respiras
Apaga as pegadas que te subtraem ao luar
E geme
Grita
Engasga a noite
E treme
De gozo

20111228

Poema partido





Faz de conta que o frio casa com a fogueira
Faz de conta que a neve se deita com o mar
Faz de conta que o beijo se bebe à distância de um verbo
Faz de conta que o abraço se cinge no olhar

Faz de conta que a chuva se enamora do sol
Faz de conta que o céu se cristaliza de sal
Faz de conta que a paixão é um verso perdido
Faz de conta que o amor é um poema partido
Faz de conta que a dor é um doce sinal

Faz de conta que a lua é um manto
Faz de conta que a maré é um barco ancorado
Faz de conta que o amor é o mar
Faz de conta que as ondas são rios de luar
Faz de conta que a espuma é chegada e partida
Faz de conta que a sorte é um jogo de azar

Faz de conta que a sede se sacia no vento
Faz de conta que a fome se aplaca com o tempo
Faz de conta que o calor é um gemido
Faz de conta que a lágrima é uma prece
Faz de conta sem conta ou medida
Faz de conta que a paz se conquista na vida
Faz de conta que na vida tudo se esquece

Faz de conta…
Faz de conta…
Faz de conta…



Faz de conta que o Novo Ano será para ti aquilo que mais desejares que seja!


Bom Ano de 2012!

20111107

Escrever ou Dormir




Gosto de escrever; e gosto (ainda mais) de dormir.
Escrever é-me fuga; dormir, também.
Escrever exige-me esforço, trabalho, suor... mas dá-me prazer ao brincar com as palavras; dormir relaxa-me o corpo e liberta-me a mente para voltar a outros suores, a outros prazeres.
Escrever pode levar-me ao sonho; mas dormir, também.
Se dormir me liberta, escrever não me escraviza. E se noites há sem dormir; dias, também, sem escrever. Quais serão piores?

Gosto de escrever; e gosto de dormir.

Pois: continuarei a escrever enquanto escrever me der prazer; tal como dormirei quando tiver sono...
Para além disso... nem tudo será realidade; e nem ficção, ou poesia; ou se verá à luz do dia.

20111026

Enfim




Chove. Enfim.
O guarda-chuva, perdido no fundo da mala, há muito que esperava para se abrir. Abriu-se. Enfim.
Tremeu. Abanou. Brrr! Quase se virou ao contrário.
Suportou, enfim, a dança dessa chuva tocada pelo vento numas cordas desafinadas, tão mal dedilhadas... e a um ritmo descompassado, de acordes tão imperfeitos quanto desvairados.
Enfim. Chove.
Quem nos acode?

20111003

Pausa




A borboleta branca volteia sob um sol afogueado.
É de dor o murmúrio amarelo, incendiado, do céu.
Geme o dia de outono descontente, porque a vibração soalheira é fria de tão quente.

A borboleta retorna volta e meia, indiferente, sobre os panascos ressequidos.
Doridos estão os pés; ardidos são os olhos; fugidos vão os sonhos.

E a borboleta branca pausa na canícula,
à espera que a empurre, fresca, um manso sopro, só que seja, de brisa.

20110905

On/Off



Segunda-feira. A semana de trabalho inicia-se em ponto-morto. Depois, as mudanças começam a engrenar, fragilosamente, num somar e seguir. O rumo? Um pouco ao norte… sem grande norte. Sem grande porte. Mas, com um pouco de sorte, de um céu azul brilhante, talvez forte.
A via repete-se-me, serpentinando. E eu… eu movo-me em fôlego concertinótico, arrancando uma nota para lá e outra para cá, de um mesmo botão. O de ligar e desligar.

Tons Maiores: