20120526

Um Arco-íris e Arame Farpado



(Imagem)

Pinto numa tela de sombras
Um arco-íris em arame farpado
Um sol que brilha escondido
Num universo nublado
Mas eu não sei pintar
E tolhem-me dias impacientes

Tinjo uma nesga de sol no horizonte
Fiapos de estrelas ao vento
Chuviscos de versos dolentes
Caudal de abrolhos fulgentes
Em campo minado sem tento

Açoito o leito dum rio
Areia sem pó nem navio
Num vácuo dormente e canino
Em que me alheio e amofino

E cismo
De entre uns rastos de harmonia
Talvez brote poesia



20120426

Sem mão



Não era o lugar nem o momento ideais nem oportunos. Talvez por isso. E o proibido é o mais apetecido. Aula de História Social. Um letreiro: convite a loucuras inconfessáveis. Multas para quem fosse apanhado com:
“ (…) 2.º – Mão naquilo (15$00); 3.º – Aquilo na mão (30$00); (…) ”
Sorriram-se, sentados na última fila.
Ele lembrou-se daquela anedota do filho do maquinista: “O quê?... primeira classe e os bancos são de pau?”. Realmente… não dava jeito nenhum… Ainda assim, o mundo parava ali.
Olhou-a, como quem não sabe o que quer… mas querendo. Olhou-o, como quem não sabe o que faz… mas fazendo. Olharam-se, como quem não sabe nada de nada, mas sabendo bem. O desejo começava a ser forte!… Um botão. Não!... Sim, dizem os olhos. Bolas!… aqui não!... Sim… Aquela mão irradiava centelhas de calor que o trespassava até à medula. Sentiu um arrepio profundo a inundá-lo. Céus! A carícia tinha ido longe demais. Não conseguindo aguentar começou por deslizar também, disfarçadamente, a sua mão pelo braço da sua amada… pela perna, até ao joelho… depois para cima, lentamente, saia adentro…
De olhos fechados, saboreou com sofreguidão a embriaguez que se apoderava dele.
— Humm… Oh!... ... ... Raios parta o sonho!...
Estendeu o braço e encontrou-a. Subiu-lhe a mão, quente, por debaixo da camisola e alcançou-lhe o mamilo…
Ainda bem que ela estava ali, mesmo à mão de semear…

20120410

A Pedinchice


Uma caixa de fósforos e meio litro de petróleo; um quilo de prego de meio solho e de ripa, misturados; um pacote de cloreto e um quarto de quilo de sabão azul; um pacote de massa de meada; meio quilo de açúcar amarelo. Com conta, peso e medida. Os rebuçados quase todos. Sem conta nem medida.
Foi assim uma tarde inteira atrás do balcão da loja. E um enorme ralho furioso do pai.
Aos poucos, o pai foi-lhe confiando a loja. Desde pequenina foi aprendendo e ajudando e, depois, quando o pai a sentiu preparada, para além de aviar os fregueses, passou a anotar as faltas de mercadoria e a fazer as encomendas aos vendedores quando o pai não estava; conferia, também, a mercadoria que os viajantes iam entregar e arrumava-a nas prateleiras; e, ainda, tinha ao seu encargo o registo das facturas das compras no livro.
Naquela tarde, o pai teve que sair e ela ficou sozinha a tarde toda, como noutras vezes. Até se desenrascou bem… só com os rebuçados é que correu mal.
– O frasco dos rebuçados está quase vazio porquê?
– Vendi-os…
– E onde é que está o dinheiro? – perguntou o pai, de gaveta aberta, depois de conferir as vendas que ela tinha anotado.
Foi apanhada. E teve que dizer toda a verdade, que era só uma: tinha-os dado à Nelita, à São e à Fernanda.
A voz do pai ecoou pela loja inteira e, decerto, pela rua além. Encolheu-se com medo de que a trovoada trouxesse chuva, mas a nuvem negra passou ao lado e escapou daquela. Não escaparia de uma próxima, deixou o pai prometido. Mas “não acontecerá mais”, também ela deixou prometido.
Daquela vez, as amigas conseguiram levá-la à certa quando lá foram chamá-la para jogar à macaca com elas. Como lhes disse que não podia sair, encostaram-se ao balcão a dizerem que, então, tinha que lhes dar rebuçados para as compensar; e voltaram mais vezes, com falinhas mansas, a pedir sempre mais.
Mas não voltaria a cair noutra, porque viu como foi palerma ao deixar-se levar na pedinchice delas e no que elas lhe diziam. Afinal, se elas gostassem dela, como ela gostava delas e, ainda mais, sendo duas mais velhas do que ela, não teriam ousado abusar da sua bondade e fraqueza, agindo daquela maneira, só pensando nelas e nada na amiga.

20120308

Ainda há dias de sorte




– Porque tens uma boca tão grande?
– É para te comer!
E o lobo mau saltou da cama sobre a Capuchinho Vermelho para a comer. Ela deu um grito tão estridente que ele ficou com ela atravessada na garganta.
Atordoado por aquele grito que lhe abalou os tímpanos, sentiu-se sufocar, custando-lhe a engoli-la. “Malvadas mulheres – ainda pensou –, que com os seus gritos atordoam e sufocam qualquer macho!”
Um caçador, que por ali andava perto, de espingarda ao ombro e de faca de mato à cintura, ouviu o grito e resolveu ir ver o que se passava. Foi dar com o lobo mais para lá do que para cá. Adivinhou o que tinha acontecido, quando o viu sozinho no quarto, caído no chão, de barriga inchada e com uns sapatos a espreitar do bocarrão.
– Aí tens, lobo guloso, a paga pelo que fizeste. Estrebuchas agora, malvado, depois de tão grande pecado!
O lobo, de olhos esbugalhados, mal conseguiu rosnar:
– Água… água…
– O rio corre já ali… e eu até tenho pena de ti. Comer duas mulheres à mesma refeição, se não é morte é indigestão. Pode ser que eu, com a minha faca, seja a tua salvação...

20120214

Sobra tempo e falta vida



Há uma linha invisível, uma ténue fronteira entre o ontem e o hoje… (e o amanhã?); entre o conhecimento e a ignorância; entre a saúde e a doença... entre a vida e a morte.
Espero. Há um nó que me aperta o estômago.
Conto os minutos para ser atendida, mas eles arrastam-se cada vez mais lentos. Inversamente proporcional é o galope do meu coração, em ânsias de chegar à meta. Quero acabar com isto rapidamente.
Espero. E não tenho tempo para esperar.
Espero o desfecho de uma vez por todas. Espero em ânsias depressivas, corrosivas, lesivas da minha já debilitada sanidade mental.
Espero. E chove-me enquanto espero. A chuva que me escorre é porta de vai e vem. Para lá dela, o nevoeiro: o despontar da noite ou do dia - o crepúsculo ou a aurora. Quando será a minha vez?
Queria poder dizer que sou dona de mim, que quem manda em mim sou eu... e até pensava que era um pouco assim. Mas não é. Tudo o que tenho não é meu. Tudo o que penso não me cabe no pensamento. Tudo o que sinto me escapa…
Tudo o que sou, ou não sou, serve-se-me agora nas mãos. Numa carta fechada. Para quê esperar se adivinho o que ela contém? Lá dentro, o meu futuro. E o dos meus cinco filhos… mais dois gatos persas, um caniche e um papagaio.
(Oh, meu Deus!... que será deles?) Não consigo pensar. Ter-se-ão uns aos outros quando a porta se fechar.
Espero. E falta-me tempo para esperar.
A vida nunca é como a sonhamos.
E a morte é uma certeza feroz, que espreita a vida dentro de um envelope de análises.

20120125

Sopra




Enche o peito de ar
E sopra
Faz tremer as tempestades
Afronta todas as marés vivas
Prende o sol nas mãos
E brilha
Inflama o mar
Acende as cavernas negras
E aquece o ar que respiras
Apaga as pegadas que te subtraem ao luar
E geme
Grita
Engasga a noite
E treme
De gozo

20111228

Poema partido





Faz de conta que o frio casa com a fogueira
Faz de conta que a neve se deita com o mar
Faz de conta que o beijo se bebe à distância de um verbo
Faz de conta que o abraço se cinge no olhar

Faz de conta que a chuva se enamora do sol
Faz de conta que o céu se cristaliza de sal
Faz de conta que a paixão é um verso perdido
Faz de conta que o amor é um poema partido
Faz de conta que a dor é um doce sinal

Faz de conta que a lua é um manto
Faz de conta que a maré é um barco ancorado
Faz de conta que o amor é o mar
Faz de conta que as ondas são rios de luar
Faz de conta que a espuma é chegada e partida
Faz de conta que a sorte é um jogo de azar

Faz de conta que a sede se sacia no vento
Faz de conta que a fome se aplaca com o tempo
Faz de conta que o calor é um gemido
Faz de conta que a lágrima é uma prece
Faz de conta sem conta ou medida
Faz de conta que a paz se conquista na vida
Faz de conta que na vida tudo se esquece

Faz de conta…
Faz de conta…
Faz de conta…



Faz de conta que o Novo Ano será para ti aquilo que mais desejares que seja!


Bom Ano de 2012!

Tons Maiores: