20121218

Perdão




Ou se dá e se recebe, ou não há remissão.
É um acto de amor, de compaixão; um sopro de futuro, mão na mão.
Alívio no coração, crescimento, libertação; levantar de um peso com leveza; asas; tranquilidade no olhar.
Apagar um erro. Perdoar, perdoar!
É energia no caminho; poder de reconstrução; um passo em frente na vida, de afecto, de conversão.

Perdoar é ser perdoado. Fácil? Claro que não!

E sabes quantas vezes terás de perdoar?
Mesmo que não sejas bom a matemática: será sempre 70 X 7, pois então!


20121115

Nabos da Púcara




 – Então, menina, conta lá!

 – Contar o quê?

 – Não te faças de sonsa, pensas que eu não sei?

 – Sabes?... Sabes o quê?

 – Ora, queres lá ver agora… hmm… nem penses que te escapas sem me contar…

 – Mas não há nada para contar!

 – Ai há, há!… olha aí tu toda corada…

Maria toca instintivamente com a mão na cara, sentindo-a quente:

 – Isto é porque já estou a ficar enervada com essa tua insistência…

Mas Lili não desarma:

 – É, é!… vá lá, desembucha! Eu sei que se passa alguma coisa…

 – Mas não se passa nada!... não sejas chata!

 – Ok, ok… não queres contar, não contes… mas olha que eu podia ajudar-te…

 – Bolas!... isto mais parece uma cena para os apanhados!

20121008

Sorriso



Uma janela, aberta de par em par, por onde a alma se escapa. Por vezes timidamente; outras, à descarada. Uns dias, só uma fresta; outros, escancarada. E a alma passa: tantas vezes receosa; outras, alma penada; vermelha, cor-de-rosa, amarela, esverdeada; com sonho ou acordada. Uns dias, de noite escura; outros, de madrugada; outros, ainda, à dependura do sol, que sobe no horizonte, levando pelo caminho os outros até à fonte.

Sem cortinas e com elas: passa calor, passa luar, frescura à luz de velas; ternura, aconchego, carinho; humor, vida, atenção; zombaria, alegria; uma seta que se espeta no centro do coração.

Pertinente, inconveniente, um raiar de sentimento. Às vezes, um diz que diz; outras vezes por um triz um ar de graça que passa, sem jeito, com jeito, a preceito, por tudo e por nada. E outras vezes, contudo, com tudo e sem nada.

20120915

Vento e Luz



(Imagem: Ma Dong Min)

Um vento meio silente sussurra
Nas pequenas horas da manhã
Quando a luz começa a arder
Por detrás das montanhas

Pelos umbrais rasteja
Em leve sopro
Nos dias em que a penumbra é chaga
E a luz é espada

Quem ousará abrir cortinas?
Quero ver o vento solto nos cabelos
E a luz uma dança nos olhares

20120731

Um Arco-íris na Bruma



"...das ilhas de brumas
Onde as gaivotas vão beijar a terra"

Ele veio. Deslizou silenciosamente de entre a bruma e ancorou os pés na ilha. Cingiu-a num abraço apertado, trazendo um rio de sol e o céu como aliado, sabendo-a sequiosa de si como se o mar lhe segredasse as saudades. E durou. E dourou. Brilhou e rebrilhou enquanto lhe foram saltando as moedas de ouro de dentro do pote, até lhe doerem as mãos de tanto as lançar ao ar, até lhe arderem os olhos de mil cores projectadas, até lhe cansarem os pés na terra azul soletrando o mar.
Entre terra e mar, um arco-íris. Um gesto terno pousado. Um beijo dado. E eu encolhi-me nessa imensidão, recolhi-me nesse afecto, acolhi-me a essa paz, sabor doce quase vertigem, quase montanha… Quase infinito.

20120630

Um Arco-íris e… um Fio-de-prumo




Já toda a gente viu um arco-íris. Se calhar, nem toda a gente viu um fio-de-prumo, ou sabe o que é. Eu já. Ambos. Já corri atrás de um arco-íris. Já tive um fio-de-prumo nas mãos. E tenho um fio-de-prumo na vida e um arco-íris no olhar.
Entre um arco-íris e um fio-de-prumo há uma diferença abismal. Ou nem tanto, nem tanto…
Um dia, um arco-íris encontrou um fio-de-prumo. Ou um fio-de-prumo encontrou um arco-íris. Encontraram-se um ao outro. Chega sempre algum dia em que os opostos se cruzam. Um arco-todo-redondo e um fio-todo-vertical. Um arco de luz de todas as cores e um fio descorado pela labuta serviçal. Cada um com as suas qualidades e as suas diferenças – bem diferentes, por sinal. Ou nem tanto, nem tanto…
Com um céu cinzento como pano de fundo, depois da chuva, o arco-íris aproximou-se de mansinho e brilhou. O fio-de-prumo espreitou: chovia ainda?... Ah, o que era aquilo?! Foi acostando o olhar…
— Olá, sou o Arco-íris… queres passear? As minhas cores podem elevar-te pelo ar.
Nunca tinha visto nada assim… o fio-de-prumo, sempre tão direito e sisudo, apoiou o queixo no parapeito da janela e começou a sonhar… podia, quem sabe, conhecer outros mundos, outros lugares… e, sem saber como, deixou-se levar. Correu o firmamento, subiu aos pontos cardeais… observou toda a esfera celeste, traçou-lhe círculos verticais; e pode constatar que há sempre mundos tão diferentes que se podem tocar.
E o arco-íris amou esse fio-todo-vertical em si suspenso, que lhe aprumava a postura acima da linha do horizonte.

20120526

Um Arco-íris e Arame Farpado



(Imagem)

Pinto numa tela de sombras
Um arco-íris em arame farpado
Um sol que brilha escondido
Num universo nublado
Mas eu não sei pintar
E tolhem-me dias impacientes

Tinjo uma nesga de sol no horizonte
Fiapos de estrelas ao vento
Chuviscos de versos dolentes
Caudal de abrolhos fulgentes
Em campo minado sem tento

Açoito o leito dum rio
Areia sem pó nem navio
Num vácuo dormente e canino
Em que me alheio e amofino

E cismo
De entre uns rastos de harmonia
Talvez brote poesia



20120426

Sem mão



Não era o lugar nem o momento ideais nem oportunos. Talvez por isso. E o proibido é o mais apetecido. Aula de História Social. Um letreiro: convite a loucuras inconfessáveis. Multas para quem fosse apanhado com:
“ (…) 2.º – Mão naquilo (15$00); 3.º – Aquilo na mão (30$00); (…) ”
Sorriram-se, sentados na última fila.
Ele lembrou-se daquela anedota do filho do maquinista: “O quê?... primeira classe e os bancos são de pau?”. Realmente… não dava jeito nenhum… Ainda assim, o mundo parava ali.
Olhou-a, como quem não sabe o que quer… mas querendo. Olhou-o, como quem não sabe o que faz… mas fazendo. Olharam-se, como quem não sabe nada de nada, mas sabendo bem. O desejo começava a ser forte!… Um botão. Não!... Sim, dizem os olhos. Bolas!… aqui não!... Sim… Aquela mão irradiava centelhas de calor que o trespassava até à medula. Sentiu um arrepio profundo a inundá-lo. Céus! A carícia tinha ido longe demais. Não conseguindo aguentar começou por deslizar também, disfarçadamente, a sua mão pelo braço da sua amada… pela perna, até ao joelho… depois para cima, lentamente, saia adentro…
De olhos fechados, saboreou com sofreguidão a embriaguez que se apoderava dele.
— Humm… Oh!... ... ... Raios parta o sonho!...
Estendeu o braço e encontrou-a. Subiu-lhe a mão, quente, por debaixo da camisola e alcançou-lhe o mamilo…
Ainda bem que ela estava ali, mesmo à mão de semear…

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