20090226

Gata Borralheira


(Degas, The rape - 1868/69)

O amor tem destas coisas: por vezes acaba. Até o dia que nasce com um sol esplendoroso pode ficar carregado de nuvens negras. Porque teremos nós a capacidade de mudar?
Um amor para a vida inteira é, cada vez mais, uma utopia. Sonha-se com o príncipe encantado, ou com a Cinderela, e depois, o príncipe, afinal, é um sapo, ou à Cinderela, descobre-se que não lhe serve o sapato.
Um Príncipe e uma Cinderela – uma história banal: Filomena, menina-mulher, casara com o príncipe dos seus sonhos, depois de meia dúzia de meses de romance, em que por uma meia dúzia de vezes se olharam e outra meia se tocaram. Nesse dia, sentira-se a princesa que ele tinha resgatado de Gata Borralheira, daquela sub-vida em que os maus tratos físicos e psicológicos eram o seu pão de cada dia. Começara, enfim, a viver. Emergira e sentira-se flutuar numa doce magia, numa felicidade dourada e reluzente, num sonho tão cor-de-rosa, que até estremecia com medo de acordar e vir a descobrir que aquele sonho era um pesadelo.
Decorreram semanas de mel e luar em que ele, amante apaixonado, sofregamente, a ensinou a ser mulher, a descobrir sensações nunca antes imaginadas. E aprendeu o que era amar, o que era desejo, o que era o êxtase e a plenitude da felicidade.
Exalando um mar transbordante de águas quentes – escaldantes até – cega de amor e de vida, passavam-lhe ao lado alguns pormenores. O seu marido, cada vez mais, vivia na noite, com o álcool como companhia principal; mas ela desculpava, porque ele a amava sempre com intensidade, impetuosamente. Se existiam algumas diferenças, essas eram em si. Descobriu porquê: estava grávida. Ele confiou-lhe lágrimas de alegria, e nela elevou-se o instinto maternal – ele queria um filho. Sublime contentamento, suprema negridão. Não, não era uma filha que ele queria…
O modo como se desenrola uma história, apesar de contornos peculiares, não é muito diferente de outras histórias. Filomena carregava uma filha no ventre e, ao mesmo tempo, foi carregando agressões, violações, fome; toda a espécie de violência física, verbal e psicológica, por parte de um homem cobarde e irracional que, sob a capa do álcool, parecia lograr um só propósito. E a filha nasceu… e morreu em seguida.
O que sempre temera acabara de acontecer.

(M. Fa. R. - 21.02.2009)

10 comentários:

Isabel José António disse...

Querida Amiga Fa menor,

É muito curioso este seu conto. Nele são retratadas as principais ilusões que inundam as mentes da humanidade.

É que, provavelmente, a felicidade não está nos êxtases físicos do amor, nem nas palavras ditas e repetidas, nem sequer estána dependência de terceiros (namorado(a), marido (mulher), príncipe (princesa),ou de algo exterior a cada um de nós. De todo, é NÃO ESTÁ.

A felicidade está somente na dependência de nós mesmos. Na possibilidade de SERMOS NÓS MESMOS, INTEIROS, LÚCIDOS E AMOROSOS (amor aqui na perspectiva de dádiva aos outros, à vida, à Natureza, etc.. De sermos capazes de aceitarmos as nossas insuficiências sem dramas; de almejarmos irmos mais além e mais alto; de sermos capazes de fazer o silêncio para se ouvir dentro de nós aquela vozinha que nos fala sem palavras e nos coloca em harmonia com tudo e com todos, já TUDO provém da mesma FONTE.

Se conseguirmos ter esta postura, estaremos a caminho de podermos PARTILHARMOS com os outros a vida, os sentimentos, pensamentos e emoções.

A vida é feita de INTERACÇÃO. Somente a interacção das partículas sub-atómicas umas com as outras, permitiu sair dos caos inicial para a ordem existente no Universo. É na COOPERAÇÃO que está o segredo da felicidade.

Existem êxtases para além do amor físico, tão intensos ou mais, que estes. E se forem partilhados, até os êxtases físicos se tornam superiores.

Peço desculpa de tão extenso comentário. Mas não tinha como dizer-lhe tudo isto de outra forma.

Um grande abraço

José António

Fa menor disse...

José António,
não tem nada de que pedir desculpa... e eu só tenho a agradecer as suas palavras que li com bastante agrado.
Bem haja!

Abraço

malu disse...

Bravo Fá!

Refiro-me ao blogue, ao que já li por aqui.

Resumes nesta história, infelizmente tantas e tantas que nunca serão (foram) conhecidas. Tão bem escrita e de uma forma tão alertante, obviamente o teu objectivo e muito bem conseguido.

Grande bj!

Fa menor disse...

Malu,
Obrigada!
Conto ir escrevivendo semanalmente por aqui... vida, sonho, utopia... logo se verá. Vai passando.
Beijinhos

Dennys Reys disse...

Muitas das suas histórias... Sção testunhos de vida.... consigo ver em minha própria vida...
Obrigado

Paulo Sempre disse...

Depois o inverso também acontece: vítimas do sexo masculino!
A actual liberdade da mulher também contribuiu para um certo estado de coisas. O chamado "sexo mais fraco" também luta - mesmo que para tanto tenha que «anular» o "sexo mais forte" - para, assim, se afirmar neste Mundo de competição pela "lei do mais forte" no "reino" dos racionais...

Paulo

PS: OBRIGADO PELA VISITA.

Fa menor disse...

Dennys,
há sempre uma fonte de inspiração...
Obrigada, eu.
Bjs



Paulo,
E tens toda a razão,
os homens também são vítimas de violencia domestica. Acho que ndamos a criar uma sociedade de monstros.
Obrigada pelas palavras!

mfc disse...

Há pessoas a quem a vida nega a felicidade sistematicamente!

Vanuza Pantaleão disse...

Pois é, Fa, embora sonhemos com um amor idealizado e perfeito, não podemos fechar os olhos a essa realidade que sempre aconteceu no passado, repete-se no presente e vai persistir no futuro.
É a vida...
Boa noite, amiga!!!
Beijos

N. Barcelli disse...

Uma história bem triste... mas, infelizmente, muito real.
Querida amiga, tem um bom fim de semana.
Beijo.