14/05/2026

Maio



A deusa de Maio endereça o seu sopro às plantas e elas crescem; os rebentinhos aparecem em cachos de folhas novas; brotam as espigas e enchem-se de pão para o semeador. Alegra-se o coração ao sorriso do Criador. É o mês de Maria. O mês do coração. Mês dos amores. Há outras cores, outras flores, muitas flores… e abelhas.
Os dias começam a ser maiores e apetece a merenda. E o céu é todo azul.

M. Fa. R. (17.03.2009)

12/05/2026

A Caixa


O rapaz espiolhava a caixa de cartão com gestos nervosos. Lá dentro, um pedaço de dor aprisionado. Todos os dias a mesma coisa: a mesma inquietação, o mesmo cansaço. E a mesma indecisão a roubar-lhe o ânimo. E o medo a espetar-se-lhe como injectável de penicilina a que era alérgico. Um antídoto: precisava urgentemente de um antídoto. Sabia o veneno a espalhar-se rapidamente em espasmos irracionais, incontroláveis. E cerrou com força os olhos; contornou a torneira do pânico; tapou a caixa. Era melhor esperar amanhã. Amanhã é sempre outro dia.
Mas amanhã não lhe traria surpresas. Ou, quem sabe, trouxesse… mas não a liberdade. A liberdade era ali cúmplice da coacção. E o corpo, uma cela de prisão. E a frustração uma arma que a própria mão atira ao peito, à traição. E então, a infidelidade toma forma quando repetidamente pensada.
Os homens são todos iguais. Assim como as mulheres. Eles iguais a eles; elas iguais a elas.
Mas a fidelidade também está aí: em ser-se igual aos homens se se é homem; e igual às mulheres se se é mulher. Caramba: um homem é um homem! (E um bicho é um gato). Tomou, por fim, a decisão: não voltaria a ser fiel. Na caixa de cartão, os sapatos de Cinderela esperavam a hora de o fazer sentir a mais bela.

(M. Fa. R. - 30.11.2010)

11/05/2026

Um Arco-íris e Arame Farpado



(Imagem)

Pinto numa tela de sombras
Um arco-íris em arame farpado
Um sol que brilha escondido
Num universo nublado
Mas eu não sei pintar
E tolhem-me dias impacientes

Tinjo uma nesga de sol no horizonte
Fiapos de estrelas ao vento
Chuviscos de versos dolentes
Caudal de abrolhos fulgentes
Em campo minado sem tento

Açoito o leito dum rio
Areia sem pó nem navio
Num vácuo dormente e canino
Em que me alheio e amofino

E cismo
De entre uns rastos de harmonia
Talvez brote poesia



08/05/2026

Gata Borralheira



(Degas, The rape - 1868/69)

O amor tem destas coisas: por vezes acaba. Até o dia que nasce com um sol esplendoroso pode ficar carregado de nuvens negras. Porque teremos nós a capacidade de mudar?
Um amor para a vida inteira é, cada vez mais, uma utopia. Sonha-se com o príncipe encantado, ou com a Cinderela, e depois, o príncipe, afinal, é um sapo, ou à Cinderela, descobre-se que não lhe serve o sapato.
Um Príncipe e uma Cinderela – uma história banal: Filomena, menina-mulher, casara com o príncipe dos seus sonhos, depois de meia dúzia de meses de romance, em que por uma meia dúzia de vezes se olharam e outra meia se tocaram. Nesse dia, sentira-se a princesa que ele tinha resgatado de Gata Borralheira, daquela sub-vida em que os maus tratos físicos e psicológicos eram o seu pão de cada dia. Começara, enfim, a viver. Emergira e sentira-se flutuar numa doce magia, numa felicidade dourada e reluzente, num sonho tão cor-de-rosa, que até estremecia com medo de acordar e vir a descobrir que aquele sonho era um pesadelo.
Decorreram semanas de mel e luar em que ele, amante apaixonado, sofregamente, a ensinou a ser mulher, a descobrir sensações nunca antes imaginadas. E aprendeu o que era amar, o que era desejo, o que era o êxtase e a plenitude da felicidade.
Exalando um mar transbordante de águas quentes – escaldantes até – cega de amor e de vida, passavam-lhe ao lado alguns pormenores. O seu marido, cada vez mais, vivia na noite, com o álcool como companhia principal; mas ela desculpava, porque ele a amava sempre com intensidade, impetuosamente. Se existiam algumas diferenças, essas eram em si. Descobriu porquê: estava grávida. Ele confiou-lhe lágrimas de alegria, e nela elevou-se o instinto maternal – ele queria um filho. Sublime contentamento, suprema negridão. Não, não era uma filha que ele queria…
O modo como se desenrola uma história, apesar de contornos peculiares, não é muito diferente de outras histórias. Filomena carregava uma filha no ventre e, ao mesmo tempo, foi carregando agressões, violações, fome; toda a espécie de violência física, verbal e psicológica, por parte de um homem cobarde e irracional que, sob a capa do álcool, parecia lograr um só propósito. E a filha nasceu… e morreu em seguida.
O que sempre temera acabara de acontecer.

(M. Fa. R. - 21.02.2009)

07/05/2026

A Minha Planta



Tenho uma planta encantada
Que não sobrevive se não for bem alimentada.
Água e luz do sol nas doses certas
É o que a faz viver de folhas abertas.
Precisa de carinho e atenção
Para arraigar o coração.
Se me esqueço de a regar fica com sede
Se lhe escondo o sol definha sem rede;
Se lhe dou água a mais posso afogá-la
Se a exponho ao sol intenso posso matá-la.
Gosta que lhe cante e lhe faça rimas
E lhe murmure momentos de estimas,
Vitaminas de alegria,
Nutrientes de ternura,
Fontes a correr magia,
Onde brilhe a água mais pura;
Que não lhe soletre ventos uivantes
Nem lhe aponte rios transbordantes;
Que não lhe ensine desertos
E nem lhe chova céus abertos;
Mas que lhe firme oásis, estrelas, cor...

A minha planta chama-se Amor.



29/06/2025

Aos Santos Populares



Depois do Santo António e do São João
Que põem muita gente a bailar
Com o bom caldo verde, broa e a sardinha assada
E o suave cheirinho a manjerico no ar

Vem a fechar os festejos o São Pedro
Protector das viúvas e dos pescadores
Fazendo cair uma chuvinha quando quer 
Abre as Portas do Céu e acompanha as nossas dores
(Jo Ra Tone)

de Juvenal Nunes do blogue Palavras Aladas

17/12/2024

É Natal




Paz e Amor
Saúde, Felicidade e Alegria
Deseja-se a todos nestes dias
Pois despontou a aurora na noite
Nas trevas brilhou uma Luz
Para nos apontar o caminho
Rompeu as sombras do mal
Da Virgem nasceu Jesus
Num presépio pobrezinho
Desceu para nós – é Natal! 

Ao 4º Encontro Temático de Juvenal Nunes - Um Poema de Natal 

Publicado originalmente em 24/12/2010 em Nuvens de Orvalho (apagado), como resposta ao desafio de  Fábrica de Letras, Desafio de Dezembro
com Adenda em 31. 12. 2010:
Sai um ano e entra outro
Para muitos de modo banal
Mas cresça um ano de luz
Que em todo o ano Natal!



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