12/07/2026
Quando as ondas do mar se transformam em gaivotas

Foto: Eider Oliveira
Ao cair da tarde
As ondas do mar transformam-se em gaivotas
A poesia veste o areal
E a praia converte-se
Obedecem os barcos ao chamamento do mar
E as redes mudam-se em peixes a pular
Movem-se em corrupio para ver
Pessoas sôfregas em alvoroço
E uns compram a dez outros a cem
Que esta poesia também é para comer
Entretanto ressoa o marulhar turbulento
E no lastro doirado estendidos
Plebeus panos sorridentes
De voluptuosos reflexos coloridos
Debaixo do azul reluzente
No oiro espelhado da areia
Constroem em risos castelos crianças
Vigiadas pelos olhares das sereias
E ora ao banho na hora
Da festa ondulante magia
No sal que jorra e sacia
Corpos e almas afora
Tinge-se em momentos de branco o céu
Quando as nuvens se enxameiam
E novamente de luz
Assim que elas se retiram
E é ao cair da tarde
Que as ondas do mar se transformam em gaivotas
Ao transfigurar-se o sol em bruma
E eu rendo-me à sonolência
Quando o mesmo bando
Se desfigura em espuma

11/07/2026
Música em Sol menor
As rolas: logo de madrugada são um sol-e-dó. Sem sol nem dó.
Antes que o sol desponte já a música aponta sem dó, a despertar o sol da manhã, e não se pode dormir um pouco mais. São cantorias tais que se espalham nos raios penetrantes do dia. É uma alegria em sol e dó, uma arrelia sem dó nem piedade.
Por caridade, alguém me espante essas aves que me espantam o jardim. Enfim, dormir não é para mim.
10/07/2026
Um Arco-íris e… um Fio-de-prumo

Já toda a gente viu um arco-íris. Se calhar, nem toda a gente viu um fio-de-prumo, ou sabe o que é. Eu já. Ambos. Já corri atrás de um arco-íris. Já tive um fio-de-prumo nas mãos. E tenho um fio-de-prumo na vida e um arco-íris no olhar.
Entre um arco-íris e um fio-de-prumo há uma diferença abismal. Ou nem tanto, nem tanto…
Um dia, um arco-íris encontrou um fio-de-prumo. Ou um fio-de-prumo encontrou um arco-íris. Encontraram-se um ao outro. Chega sempre algum dia em que os opostos se cruzam. Um arco-todo-redondo e um fio-todo-vertical. Um arco de luz de todas as cores e um fio descorado pela labuta serviçal. Cada um com as suas qualidades e as suas diferenças – bem diferentes, por sinal. Ou nem tanto, nem tanto…
Com um céu cinzento como pano de fundo, depois da chuva, o arco-íris aproximou-se de mansinho e brilhou. O fio-de-prumo espreitou: chovia ainda?... Ah, o que era aquilo?! Foi acostando o olhar…
— Olá, sou o Arco-íris… queres passear? As minhas cores podem elevar-te pelo ar.
Nunca tinha visto nada assim… o fio-de-prumo, sempre tão direito e sisudo, apoiou o queixo no parapeito da janela e começou a sonhar… podia, quem sabe, conhecer outros mundos, outros lugares… e, sem saber como, deixou-se levar. Correu o firmamento, subiu aos pontos cardeais… observou toda a esfera celeste, traçou-lhe círculos verticais; e pode constatar que há sempre mundos tão diferentes que se podem tocar.
E o arco-íris amou esse fio-todo-vertical em si suspenso, que lhe aprumava a postura acima da linha do horizonte.
08/07/2026
Escrever, ou Dormir

Gosto de escrever; e gosto (ainda mais) de dormir.
Escrever é-me fuga; dormir, também.
Escrever exige-me esforço, trabalho, suor... mas dá-me prazer ao brincar com as palavras; dormir relaxa-me o corpo e liberta-me a mente para voltar a outros suores, a outros prazeres.
Escrever pode levar-me ao sonho; mas dormir, também.
Se dormir me liberta, escrever não me escraviza. E se noites há sem dormir; dias, também, sem escrever. Quais serão piores?
Gosto de escrever; e gosto de dormir.
Pois: continuarei a escrever enquanto escrever me der prazer; tal como dormirei quando tiver sono...
Para além disso... nem tudo será realidade; e nem ficção, ou poesia, ou se verá à luz do dia.

Gosto de escrever; e gosto (ainda mais) de dormir.
Escrever é-me fuga; dormir, também.
Escrever exige-me esforço, trabalho, suor... mas dá-me prazer ao brincar com as palavras; dormir relaxa-me o corpo e liberta-me a mente para voltar a outros suores, a outros prazeres.
Escrever pode levar-me ao sonho; mas dormir, também.
Se dormir me liberta, escrever não me escraviza. E se noites há sem dormir; dias, também, sem escrever. Quais serão piores?
Gosto de escrever; e gosto de dormir.
Pois: continuarei a escrever enquanto escrever me der prazer; tal como dormirei quando tiver sono...
Para além disso... nem tudo será realidade; e nem ficção, ou poesia, ou se verá à luz do dia.
01/07/2026
Julho
(Jacquie Howard)
Julho é o mês [do preciosíssimo sangue] de Jesus. E das colheitas, das eiras, e de arrecadar no celeiro, a fim de ter pão para comer o ano inteiro. Há sol e abelhas com fartura; pelo que não é de descurar protecção à altura! Miúdos e graúdos absorvem a luz que se reflecte em si; e é algazarra e alegria nos seus trinta e um dias.
M. Fa. R. (17.03.2009)30/06/2026
Junho
Ana Nunes, A Ceifa
Junho, dizem, é mês de foice em punho. É, por isso, o mês de ceifar os pastos, os trigais, em alegres madrugadas, recheadas de frescura e de alvura. É bom poder comemorar Portugal e Camões; e os santos Populares. É tempo de folia. Veste-se roupa mais leve, pois chega o Verão lá pelo São João. Nos seus trinta dias, brotam flores que lembram o paraíso, e com elas vem o sorriso.
Junho, dizem, é mês de foice em punho. É, por isso, o mês de ceifar os pastos, os trigais, em alegres madrugadas, recheadas de frescura e de alvura. É bom poder comemorar Portugal e Camões; e os santos Populares. É tempo de folia. Veste-se roupa mais leve, pois chega o Verão lá pelo São João. Nos seus trinta dias, brotam flores que lembram o paraíso, e com elas vem o sorriso.
M. Fa. R. (17.03.2009)
Adenda em 12.06.2009:
Hoje, as andorinhas pequeninas fugiram do ninho do beiral do telheiro e voaram alegres pelo ar; os pintainhos espreitaram por debaixo da mãe, saídos das cascas; e os gatinhos brincam todos três no alpendre ao sol.
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