03/08/2022

És boa como o milho mas eu não sou galinha



Provocas arrepios na pele. Toda tu és arrepios. Já te disseram que és boa como o milho?

Quando esta história começou nem te passava pela cabeça o rumo que ela iria tomar. Nem a mim tão-pouco. Acabámos a descer o rio em canoa. Para baixo era sempre a descer (dizem que para baixo é que é Lisboa). Mas havia rápidos que eram rápidos demais. Ai, a água que metemos! Numa curva apertada desequilibrámo-nos e virámos a canoa ao contrário. Quase te afogaste (só depois disso é que começaste a aprender a nadar) e tive de te salvar. Puxei-te para terra e fiz-te respiração boca a boca. (Que boca!). Não era preciso, disseste depois, mas gostaste, que eu bem percebi quando as nossas línguas aguaram. Foi, então, a minha vez de quase me afogar… nesse rio que escorria em ti. Mas salvei-me a tempo nas margens das tuas mãos que me seguraram.
Endireitámos, depois, a canoa e alinhámos rio abaixo, mas continuámos a meter água. A canoa avançava umas vezes aos solavancos, outras deslizando como em ringue de patinagem, e ainda outras muito à força de remar como se fosse contra a maré. E não chegámos à meta. Virámos para um afluente magro e barrento e saímos a poucos metros, porque se tornava impraticável a navegação, ficando enlameados e exaustos. Foi quase o salve-se quem puder, com um a escorregar daqui, outro a puxar dacolá… tentando trepar a margem. E eu já nem a mim me segurava, quanto mais a ti! Terminámos a aventura no chão, espalhados ao comprido!
Descansámos, enfim, sujos e perdidos, na terra cultivada de milheiros verdes e altos, que nos engoliam. As barbas tombavam das espigas tenras, como convite a serem desfolhadas. Dizem que o milho verde é bom para comer, e a fome até era mais do que muita, mas o cansaço venceu-me e adormeci na sombra daquele milheiral, com o sol a espreitar pelas frestas.
Acordei sozinho já o sol descaía. Ergui-me e procurei-te com os olhos, mas tinhas desaparecido. Ali perto, vi uma casa de quinta para onde me dirigi e lá me esperavas com um sorriso de orelha a orelha. Estavas melhor do que eu, lavada e reconfortada. E eu nada!
Aceitei um duche e uma velha camisola, e depois, esfomeado, não me fiz rogado ao pão de centeio e marmelada, que era o que havia – desculparam-se os donos da casa.
– Oh, oh! Delicioso!
Pois não! Burro com fome, cardos come! E o que é doce nunca amargou! (Quer dizer: nem tudo! Há doces que deixam um amargo na boca: tu.)
Pedi depois para telefonar a quem nos viesse buscar. Quando chegou a boleia, agradeci a hospitalidade e fomos. E a canoa seguiu viagem, não rio abaixo, mas camioneta acima.
Chegados ao destino, cada um foi à sua vida. E cada vida tomou o seu caminho.

E caímos num impasse: nem tu me ligavas, nem eu te esquecia. Até chegar o dia em que dei por mim, com insistência, a evocar aquele milheiral verde e em como és boa como o milho, e eu que não fui nem sou galinha!
Pois bem, mas não me importei de passar por galo e tentar! Se tu não me ligavas, liguei eu:
– Estou?… Sara?...
– André!… que saudades!
– Cocorococó!...

(M. Fa. R. - 16.07.2010)

02/08/2022

Moldura Matinal



Leve é o acordar na vegetação por entre aromas molhados de burganiça e sabugueiro. 
As lágrimas de chuva suspendem-se nas ramadas, entrecortadas pelos reflexos dourados de um sol tímido. Os chilreios dos pássaros, de múltiplas linhagens, enchem o ar de colorido. Poisam, levantam, vestem as asas com a manhã e espanejam-nas sôfregas do dia. 
Este levanta-se devagar, acelerando à medida que o sol se vai abrindo num sorriso, ainda que inconstante e inseguro.
Um quadro interactivo a emoldurar no aro da janela, enquanto eu abro a boca num bocejo e esfrego os olhos piscos, para me revestir da vida, sempre renovada, que cada manhã me oferece.

21/07/2022

Arte(s)


Tela René Bertholo 3

Não é um jogo. Nem de futebol, nem de qualquer outra modalidade desportiva. Mas há um jogador profissional de futebol e um professor de educação física metidos nesta história. Cheiro-os ao longe. É que entrar num museu não é entrar num estádio de futebol ou num ginásio; nem mergulhar numa piscina olímpica. É um mergulho, mas na arte, na história, no passado; é chamar o passado ao presente e levá-lo ao futuro. Posso assemelhar a entrada num museu à entrada numa biblioteca. Por isso, um escritor famoso, como eu, também procura raízes num museu. Já a um profissional do desporto será o desporto que o lá levará; ou a curiosidade ou, quem sabe, para acalmar alguma ansiedade.
Desta vez não podia ter sido em pior altura. Foi completamente danificado um quadro dos mais valiosos do museu. E não sei como aconteceu. Só ouvi um grande estardalhaço e, a seguir, vejo aqueles dois ali especados com cara de assustados, depois do enorme estrondo de vidro a partir.
E isto é uma coisa de que ninguém se pode rir. Como é que este aparato foi suceder? Aproximo-me a tempo de ouvir um deles dizer:
– Isto parece uma cena para os apanhados.
Ainda estou a tentar perceber, quando aparece o vigilante e nos aponta, aos três, como culpados. Digo que eu não, que nem sequer estava ali ao pé. Mas ao que ele responde:
– Se nenhum de vós assumir a culpa têm de ser os três identificados.
– Foi apenas e só o quadro que se soltou da parede. Caiu sozinho. – Encolhe-se o professor.
– Caiu sozinho? Coitadinho! Quem pensa que está a tentar enganar? Têm de vir todos à gerência do museu prestar declarações. – Responde o outro já mal-humorado.
Com aquele tom de voz não pode haver recusas nem excepções. E a destruição de um quadro valioso daqueles não permite contemplações.
Fiquei deveras preocupado: achei que ainda ia pagar pelo que não fiz. Mas antes de ser apurada qualquer responsabilidade, empertiga-se o jogador e diz:
– Eu pago o prejuízo.
Ora aí está alguém com pouco juízo. Mas com dinheiro, benza-nos Deus. Não há um culpado. Há um herói. O que também é arte. Não sei se é isso que me dói, ou se entender que ser famoso mas não ter dinheiro é ser do mundo dos fracos.
Mas não há que desanimar: agora é hora de também ter arte para apanhar os cacos.

(M. Fa. R. - 02.11.2010)

Texto também publicado em Escrita Criativa - Campeonato Nacional
.

20/07/2022

Tal e actual perdigão


          _ortugal _erdeu o _ 

          não há _erda que lhe não venha!


30/06/2022

Grito


 
[Edward Munch, O Grito]

Grito
Mas só me responde o eco.
Depois faço silêncio
Na escuridão.
Os sons abafados dos pensamentos
Surgem então como lamentos
Neste beco sem saída
Onde não sei ser chegada
Nem ponto de partida
Mas antes encruzilhada
De encontros
Desencontros
Desencantos
Ausências
Prantos…
Mas, ainda assim,
Vida.
É bebida de absinto
Que faz de mim labirinto
Charneca de desenganos
Claustros murados
Profanos
Um mundo de turbilhões
Ruelas de dor
Desalento
Velas rasgadas ao vento
Que sopra desilusões.
E grito
Mas só me responde o eco.

(08.08.2009)
Poema também editado em: Porosidade Etérea em 09.09.2009

01/05/2022

Maio



A deusa de Maio endereça o seu sopro às plantas e elas crescem; os rebentinhos aparecem em cachos de folhas novas; brotam as espigas e enchem-se de pão para o semeador. Alegra-se o coração ao sorriso do Criador. É o mês de Maria. O mês do coração. Mês dos amores. Há outras cores, outras flores, muitas flores… e abelhas.
Os dias começam a ser maiores e apetece a merenda. E o céu é todo azul.

M. Fa. R. (17.03.2009)

21/12/2021

Oh, Jesus, Menino Deus


Oh, Jesus, Menino Deus, amado, 
Que nascestes indefeso no meio dos animais, 
Por eles aquecido, aconchegado; 

Quero pedir-Vos: 
Olhai por todas as crianças do mundo, 
Indefesas, a céu aberto, injucundo, 
Não por entre os animais, 
Mas à mercê de seres tais 
Sem calor afortunado, 
Que aos perigos estão votadas. 
 
Sempiterno, meu Senhor: 
Ouvi, neste mundo sem cor, 
Nem coração, nem amor, 
Os gritos que nos afogam. 
Misericórdia, meu Deus! 
 
Menino, por nós nascido, 
Tende compaixão deste mundo desunido, 
Desavindo, destroçado, 
Em vias de sufocado, 
E vinde! 
 
Nascei de novo agora, 
Nos corações atolados, 
Em esplendorosa aurora 
Queimai as ervas daninhas 
Que abafam estas florzinhas 
Sugando-lhes o ar sem dó. 
 
De mão dada à Vossa divina Mãe, 
Vinde socorrer quem grita  
Ou solta um suspiro em ai, 
E outros sem ais soltarem; 
 
Menino Deus, vos imploro, 
Tende piedade do povo agoniado, 
Do mundo por Vós amado, 
Mostrai-nos a Vossa Luz. 
 
Jesus, Menino Jesus, 
Eu sei que para nos salvar, 
Viestes morrer numa cruz, 
E que a nossa temos de carregar; 
Mas, meu Senhor, 
As crianças!... 
A essas trazei esperanças  
De que o amanhã brilhará! 
 
 
– Tende fé e animai-vos, 
Eu sempre ouvirei os ais 
Do povo ao deus-dará. 
Apegai-Vos a minha Mãe 
E lembrai-Vos que Ela vos disse: 
“Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”  
 
– Obrigada, meu Senhor e meu Deus!


(Conversando com o Menino Deus  minha participação, a convite de Rosélia Bezerra. na interacção de Natal.)
link na imagem

Para todos um Santo e Feliz Natal !

03/12/2021

Dezembro

Dezembro é Natal. É frio, é Inverno, é neve: tudo é branco. Até parece que gelam as estrelas. Os dias são pequenos e também cheios de chuva. Mas depois do Natal os dias já começam a crescer. E chega o fim do ano num repente. E deseja-se cada vez mais o tempo quente.
M. Fa. R. (17.03.2009) 


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