20180729

Pousar


Toda a vida é feita de riscos,
rabiscos e outros iscos
e por vezes versos;
outras vezes silêncios apenas,
gritos mudos que entopem a voz
para lá dos poemas que assombram em voo.

E há palavras nascidas entre poeira e pedras,
sem a humidade requerida,
que depressa se transformam em pó que o vento leva.

Porque o mundo ao derredor é um vaso de barro fendido,
que não retém a água para a rega.

A lua vai e vem, enche e esvai-se;
com momentos luminosos
e momentos de penumbra;
mas volta sempre o seu brilho
embora às vezes por entre nuvens.

E há dias inteiramente noites que são tudo escuridão;
maré vaza, preocupação,
união ao mundo
que depõe o coração nas mãos
dormentes, doentes, cansadas, estropiadas,
dantes ensinadas,
que a custo reagem aos sonhos.

O tempo passa
e desgasta
como água de um rio correndo
corroendo tudo à sua passagem.

Rio que corre para o grande oceano,
com alturas de grandes caudais
e outras de seca extrema;
desfrutando da passagem por montes e vales,
pedras, pedregulhos, calhaus rolantes
e paisagens de planícies, praias
e campos verdejantes.

Assim, entre o voo e a noite escura 
tem de haver momentos de pousar. 
Aproveitar um fresco orvalho, 
visita do sonho que ainda emerge das mãos. 

E sempre recomeçar.

10 comentários:

edna figueiredo disse...

Me encantei com o poema. Uma beleza simples e cheia de verdades.
Escreve muito bem.
Me senti dentro do seu poema.
Abraços.

alfacinha disse...

Li com muito prazer as palavras poéticas que confluem cintilantemente neste poema luso.
bjs

Pedrasnuas disse...

A poesia chegou aqui cheia de tudo !

Beijinhos

Olinda Melo disse...


Olá, Fá

Um poema cheio de desencanto e também de grandes verdades.
Há dias que são noites...há palavras que se transformam em pó, levadas pelo pó. E tanto, tanto que aqui nos diz.

Excelente!

Bj

Olinda

Parapeito disse...

Uma forma sublime de " poemar " a vida
Gostei muito.
Abraço*

Ailime disse...

Magnífico poema, Fá!
Os meus Parabéns!
Poesia de elevado nível.
Beijinhos e uma boa noite.
Ailime

Jaime Portela disse...

Um poema muito bom. Os meus aplausos para o teu talento.
Devias escrever e publicar poesia mais vezes...
Um beijo, querida amiga Fá.

Ana Freire disse...

Um poema que me maravilhou... do princípio ao fim!...
Com uma abrangência e profundidade, notáveis!!!! Já ficou registado, no meu caderninho de futuros destaques... e já imaginando que foto, posso ter, para combinar com o mesmo...
Parabéns, pelo seu extraordinário talento, Fá!
Um beijinho grande! E agora no fim de semana... irei mergulhar no seu blog de fotos... para espreitar todas as novidades, que se me escaparam nos últimos tempos...
Bom fim de semana!
Ana

Majo Dutra disse...

Imagens e analogias muito belas no seu belo poema.
Gostei.
tudo bom.
Beijinhos
~~~

Olinda Melo disse...


O desconcerto do mundo,parafraseando o nosso Camões.
Coisas boas e outras não, muitas vezes em grande desequilíbrio.

Procurar dentro de nós e junto aos nossos esse lugar de poiso e respirar
livremente poderá aquecer-nos o coração.

FELIZ ANO NOVO, minha Amiga.

Bj

Olinda