20180927

Pousar


Toda a vida é feita de riscos,
rabiscos e outros iscos
e por vezes versos;
outras vezes silêncios apenas,
gritos mudos que entopem a voz
para lá dos poemas que assombram em voo.

E há palavras nascidas entre poeira e pedras,
sem a humidade requerida,
que depressa se transformam em pó que o vento leva.

Porque o mundo ao derredor é um vaso de barro fendido,
que não retém a água para a rega.

A lua vai e vem, enche e esvai-se;
com momentos luminosos
e momentos de penumbra;
mas volta sempre o seu brilho
embora às vezes por entre nuvens.

E há dias inteiramente noites que são tudo escuridão;
maré vaza, preocupação,
união ao mundo
que depõe o coração nas mãos
dormentes, doentes, cansadas, estropiadas,
dantes ensinadas,
que a custo reagem aos sonhos.

O tempo passa
e desgasta
como água de um rio correndo
corroendo tudo à sua passagem.

Rio que corre para o grande oceano,
com alturas de grandes caudais
e outras de seca extrema;
desfrutando da passagem por montes e vales,
pedras, pedregulhos, calhaus rolantes
e paisagens de planícies, praias
e campos verdejantes.

Assim, entre o voo e a noite escura 
tem de haver momentos de pousar. 
Aproveitar um fresco orvalho, 
visita do sonho que ainda emerge das mãos. 

E sempre recomeçar.

6 comentários:

edna figueiredo disse...

Me encantei com o poema. Uma beleza simples e cheia de verdades.
Escreve muito bem.
Me senti dentro do seu poema.
Abraços.

alfacinha disse...

Li com muito prazer as palavras poéticas que confluem cintilantemente neste poema luso.
bjs

Pedrasnuas disse...

A poesia chegou aqui cheia de tudo !

Beijinhos

Olinda Melo disse...


Olá, Fá

Um poema cheio de desencanto e também de grandes verdades.
Há dias que são noites...há palavras que se transformam em pó, levadas pelo pó. E tanto, tanto que aqui nos diz.

Excelente!

Bj

Olinda

Parapeito disse...

Uma forma sublime de " poemar " a vida
Gostei muito.
Abraço*

Ailime disse...

Magnífico poema, Fá!
Os meus Parabéns!
Poesia de elevado nível.
Beijinhos e uma boa noite.
Ailime