20190306

Um brilho na chuva


A palidez das horas crava-se no dia molhado
Como quem se demora num gesto obtuso que arremeda o silêncio.
E o sol faz-se rogado, atordoado pelas nuvens
Carrancudas de chuva.

Há dias em que o sol só se abre em pequeníssimos raios
E falha uma luz maior a orientar o caminho.

Mas sabemos que o sol está lá
Todos os dias,
Por detrás do ar fechado,
Desdourado,
Sem se atrever a mostrar.

Como uma onda
No mar
Ou como as marés que influenciam a lua
Tudo tem um tempo.
E o tempo é para viver.

O tempo ajuda a moldar,
Desmoldar, refazer, levedar, dividir,
Repartir, adicionar e crescer,
Ainda que doa
A quem doer.

Mas haverá sempre uma outra qualquer onda por chegar.
Se não nos preparamos para o seu embate
Aprendendo a nadar ou tão-só a flutuar,
Ecoará a palidez
Roçagará o escarlate.

E também é preciso saber perder,
Para que não se prove o sabor amargo
Nem a árvore se despedace,
Pois não se pode contar só com vitórias.
Há que permanecer inteira, 
Nas cargas inglórias,
Com todos os ramos pegados ao tronco, à raiz.
Mesmo que nos viremos do avesso,
De cabeça ao fundo.

Depois, é levantar a cerviz
E retornar ao bulício do mundo.

Arriscar a semear um pouco de luz
E talvez colher algumas gotas de chuva luminosas.

Ainda que as nuvens se acerquem,
E em intempéries se alterquem,
Somando deslustro ao estrilho,
Não esmoreça o nosso brilho!

20190110

Arte(s)


Tela René Bertholo 3

Não é um jogo. Nem de futebol, nem de qualquer outra modalidade desportiva. Mas há um jogador profissional de futebol e um professor de educação física metidos nesta história. Cheiro-os ao longe. É que entrar num museu não é entrar num estádio de futebol ou num ginásio; nem mergulhar numa piscina olímpica. É um mergulho, mas na arte, na história, no passado; é chamar o passado ao presente e levá-lo ao futuro. Posso assemelhar a entrada num museu à entrada numa biblioteca. Por isso, um escritor famoso, como eu, também procura raízes num museu. Já a um profissional do desporto será o desporto que o lá levará; ou a curiosidade ou, quem sabe, para acalmar alguma ansiedade.
Desta vez não podia ter sido em pior altura. Foi completamente danificado um quadro dos mais valiosos do museu. E não sei como aconteceu. Só ouvi um grande estardalhaço e, a seguir, vejo aqueles dois ali especados com cara de assustados, depois do enorme estrondo de vidro a partir.
E isto é uma coisa de que ninguém se pode rir. Como é que este aparato foi suceder? Aproximo-me a tempo de ouvir um deles dizer:
– Isto parece uma cena para os apanhados.
Ainda estou a tentar perceber, quando aparece o vigilante e nos aponta, aos três, como culpados. Digo que eu não, que nem sequer estava ali ao pé. Mas ao que ele responde:
– Se nenhum de vós assumir a culpa têm de ser os três identificados.
– Foi apenas e só o quadro que se soltou da parede. Caiu sozinho. – Encolhe-se o professor.
– Caiu sozinho? Coitadinho! Quem pensa que está a tentar enganar? Têm de vir todos à gerência do museu prestar declarações. – Responde o outro já mal-humorado.
Com aquele tom de voz não pode haver recusas nem excepções. E a destruição de um quadro valioso daqueles não permite contemplações.
Fiquei deveras preocupado: achei que ainda ia pagar pelo que não fiz. Mas antes de ser apurada qualquer responsabilidade, empertiga-se o jogador e diz:
– Eu pago o prejuízo.
Ora aí está alguém com pouco juízo. Mas com dinheiro, benza-nos Deus. Não há um culpado. Há um herói. O que também é arte. Não sei se é isso que me dói, ou se entender que ser famoso mas não ter dinheiro é ser do mundo dos fracos.
Mas não há que desanimar: agora é hora de também ter arte para apanhar os cacos.

(M. Fa. R. - 02.11.2010)

Texto também publicado em Escrita Criativa - Campeonato Nacional
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20181128

O céu às portas do inferno



O encontro entre os dois seres supremos: Deus do Céu e José Sócrates da Terra.

Foi um dia particularmente mau, complicado, de trabalho arrasador. José olha-se ao espelho e nota o semblante carregado, o olhar pesado, a querer fechar-se, e uns papos inchados ao redor. Nisto, é acometido de algo extremamente violento. Pelo seu natural espírito optimista acima, começam a rodar, magistral, furiosa e vertiginosamente, umas labaredas ameaçadoras, numa espiral furacónica, que tão velozmente se inflamam e sobem, como tão depressa já estão reduzidas a carvão, a um túnel escuro como breu, apenas com um ponto muito brilhante ao fundo. Uma luz ao fundo do túnel. Foi um cataclismo tão extraordinário e rápido, de deixar arrasado qualquer um. É Deus que escreve direito por linhas circulares.
Do fundo do túnel, no meio da luz esplendorosa, a voz do Senhor, Deus do Universo:
 “Vi, debaixo do sol, a injustiça ocupar o lugar do direito e a iniquidade ocupar o lugar da justiça.” Eclesiastes 3, 16.
 Mas... meu Senhor  responde, prostrado, amedrontado, o interpelado  “Todas as coisas têm o seu tempo, e tudo o que existe debaixo dos céus tem a sua hora.” Eclesiastes 3, 1.
 Então, meu filho, e não achas que já dura há tempo demais essa infelicidade que o povo sente? Por causa dessa crise, é o desemprego a alastrar, outros sem condições para trabalhar e ainda outros a furtar… e o pão na mesa a faltar, por não haver dinheiro para o comprar.
 Mas meu Senhor  responde já mais confiante  “não só de pão vive o homem”. Mateus 4,4. O que lhes falta é fé, porque até nem têm de que se queixar… com a nova lei de redução do teor do sal no pão, nem sequer vão comprar tanto, por isso o dinheiro vai chegar. E, depois, a medida de apoio às famílias, que vai ser implementada, não lhes diz nada?! E os ‘Magalhães’? Esta gente é muito ingrata! É bem certo! “Não há homem justo sobre a terra que faça o bem e que não peque.” Eclesiastes 7, 20.
 Bem…  replica Deus  “Há um mal que eu vi debaixo do sol, derivado de um desacerto da parte do soberano: O insensato ocupa os mais altos cargos, e os homens de valor são colocados nos postos inferiores.” Eclesiastes 10, 5-6. “Vi tudo isto e apliquei o meu espírito a considerar tudo o que se faz debaixo do sol, num tempo em que um homem domina outro homem para desgraça dele.” Eclesiastes 8, 9. E os vencimentos escandalosos e as reformas milionárias arrombam com as contas públicas e deixam o país debilitado, miserável.
 “Debaixo do sol a corrida não é para os ágeis, nem a batalha para os bravos, nem o pão para os prudentes, nem a riqueza para os inteligentes, nem o favor para os sábios: Todos estão à mercê das circunstâncias e da sorte.” Eclesiastes 9, 11.  Responde José sem temor.
Deus ganha fôlego e atira de novo:
 E porquê a proposta de legalização do casamento homossexual? Sabes o que foi dito: “Não coabitarás sexualmente com um varão; é uma abominação.” Levitico 18, 22. “Se um homem coabitar sexualmente com um varão cometeram ambos um acto abominável.” Levitico 20, 13.
 Ó Deus! “Também, se dormirem dois juntos, aquecer-se-ão mutuamente; mas um homem só, como se há-de aquecer?” Eclesiastes 4, 11.
Deus acha-o a atrever-se demasiado e avisa:
 “Não digas nada inconsideradamente nem o teu coração se apresse a proferir palavras diante de Deus que está no céu, e tu na terra; portanto sejam poucas as tuas palavras.” Eclesiastes 5, 1.
Sócrates, sem medo, avança:
 “As palavras calmas dos sábios são mais ouvidas que os gritos de um chefe entre os insensatos.” Eclesiastes 9, 17.
 “Segue os impulsos do teu coração e o que agradar aos teus olhos, mas sabe que, de tudo isso, Deus te fará prestar contas.” Eclesiastes 11, 9.
Assim rematou Deus vendo que, por agora, não tinha mais verbo para Sócrates e que, para este, a palavra é lei.

Não. Ainda não foi desta! Por agora, não seria a morte a ter algo para lhe ensinar.

No entanto, "Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó." Eclesiastes 3,20.

E "O que é, já foi; e o que há-de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou." Eclesiastes 3, 15.

(M. Fa. R. - 20.03.2009)

20181118

Música em Sol menor



As rolas: logo de madrugada são um sol-e-dó. Sem sol nem dó. 
Antes que o sol desponte já a música aponta sem dó, a despertar o sol da manhã, e não se pode dormir um pouco mais. São cantorias tais que se espalham nos raios penetrantes do dia. É uma alegria em sol e dó,  uma arrelia sem dó nem piedade.
Por caridade, alguém me espante essas aves que me espantam o jardim. Enfim, dormir não é para mim.


20181029

Aromas salgados




Nas dunas 
de cactos e hortelãs 
retenho ainda da vasta vegetação 
os aromas salgados 
bastante aspirados 
nas primeiras horas da manhã


20180926

Pousar


Toda a vida é feita de riscos,
rabiscos e outros iscos
e por vezes versos;
outras vezes silêncios apenas,
gritos mudos que entopem a voz
para lá dos poemas que assombram em voo.

E há palavras nascidas entre poeira e pedras,
sem a humidade requerida,
que depressa se transformam em pó que o vento leva.

Porque o mundo ao derredor é um vaso de barro fendido,
que não retém a água para a rega.

A lua vai e vem, enche e esvai-se;
com momentos luminosos
e momentos de penumbra;
mas volta sempre o seu brilho
embora às vezes por entre nuvens.

E há dias inteiramente noites que são tudo escuridão;
maré vaza, preocupação,
união ao mundo
que depõe o coração nas mãos
dormentes, doentes, cansadas, estropiadas,
dantes ensinadas,
que a custo reagem aos sonhos.

O tempo passa
e desgasta
como água de um rio correndo
corroendo tudo à sua passagem.

Rio que corre para o grande oceano,
com alturas de grandes caudais
e outras de seca extrema;
desfrutando da passagem por montes e vales,
pedras, pedregulhos, calhaus rolantes
e paisagens de planícies, praias
e campos verdejantes.

Assim, entre o voo e a noite escura 
tem de haver momentos de pousar. 
Aproveitar um fresco orvalho, 
visita do sonho que ainda emerge das mãos. 

E sempre recomeçar.

20180608

Poeira



Há poeira no ar. No chão da rua. Nas escadas de cimento velho que levam ao primeiro andar...  
Infiltra-se nas casas através das frinchas, e vai até ao mais recôndito da alma – um outro patamar.
Quando chove pode enfim remover-se a poeira que se tinha acumulado e tornado eira, esteira, ladeira íngreme e pestilenta, escorregadia. A chuva refresca, lava e depura a macilenta agrura em que se tornou o dia-a-dia de poeira-eira-esteira-ladeira. 
Mas há poeira a formar-se continuamente no mesmo lugar. 
E quando chove dias a fio, num tempo em que se esperava estio, a poeira-eira-esteira-ladeira engole-se à mesa da cozinha defumada, como se broa bolorenta fora manjar. 

Por vezes é preciso deixar a poeira assentar. E depois a chuva cair. E regar. Lavar. Escorrer. Até parar. 

Mas como tantas vezes isso tarda em acontecer!

20180101

Boa travessia!




Ainda que pedras nos apareçam atravessadas no caminho, aproveitemo-las para nelas firmarmos os pés, fazendo delas o alicerce de um caminho mais forte, rumo à Luz do horizonte.


Tons Maiores: