17/06/2016

Aspirações


Hoje, eu aspirei a lagartixa...
mas mais do que isso,
depois aspirei também a cobra.

Não se deveria aspirar (a) certas coisas...

Não se deveria aspirar (a) certas coisas,
porque o pior vem depois:
e tirar o saco do aspirador?...


29/08/2015

Aromas salgados




Nas dunas 
de cactos e hortelãs 
retenho ainda da vasta vegetação 
os aromas salgados 
bastante aspirados 
nas primeiras horas da manhã


07/07/2015

No meu silêncio, o mar.



No meu silêncio, o mar. E o marulhar das ondas. O areal, as conchinhas; as gaivotas e, também, andorinhas; o sol e o vento. E os meus pés, ao longo da orla da maré vaza, a enterrarem-se pela areia molhada, em passadas ligeiras, breves; semi-breves e colcheias canta-me a espuma das ondas ao vir, aqui e ali, lamber-me as pernas. E eu, no meu silêncio, observo e medito. É Verão outra vez. É o mar outra vez. É a vida... outra vez: como barco que se faz ao mar e retorna à praia cansado da faina, mas nem sempre contente de pescado. Por vezes o cansaço é longo, mas o barco não encontrou o cardume que lhe enchesse as redes a gosto. Por vezes a vida geme de carregos, mas o que trazem não enche medidas nem tamanhos.

E vingam-se as toalhas garridas; e os guarda-sol coloridos; e os calções estampados, mais os biquínis reduzidos, com os seus donos e donas pelo areal ao comprido.

E o mar, sempre o mar, como pano de fundo. E eu, no meu silêncio, no meu mundo.

14/05/2015

Tal perdigão


          _ortugal _erdeu o _ 

          não há _erda que lhe não venha!


02/07/2014

Longe do mundo



Primeiro era a bruma. Depois um pingo, mais outro pingo, seguidos de outros pingos e mais pingos: uma chuva miudinha caindo levemente no terraço.
Além, num murmúrio cativante, por detrás das rochas, o mar a perder-se no horizonte, a prender-se nos olhos, a impregnar-se nos sentidos… a evolar-se na imensidão.
Tudo é mar: a neblina; a chuva; a manhã morna e peganhenta. A imensidão longe do mundo.

25/04/2014

Papoila



Papoila

Sangue na face
Lume no olhar
O eco de um grito no vento

E histórias para contar...
Nem todas rúbeas
De morrer de amor
Tantas de desfolhar
Sem cor

As papoilas são flores capazes de crescer numa terra queimada.

Papoilas seremos, de lume e sangue!


20/03/2014

A Potes


Um pote: metade barro do fundo à barriga; metade verde vidrado da barriga à boca. Pequeno. Em cima da mesa, no tampo de vidro. 
Outro pote: grande – do lado de fora do vitral. Escorre-lhe o amarelo vidrado sobre o branco barro. 

Para lá das arcadas, no cimo da montanha – lá ao longe – escorre a bruma ao encontro do verde das pastagens, por detrás do barro das telhas nos telhados – menos longe – parcialmente encobertos por outros verdes que se desdobram em vários tons de ramagens. Espessas. Compactas. Mais perto. Mas, por sua vez, outros barros de telhados se lhes sobrepõem – ainda mais perto – espreitando outros verdes, esguios de caniços e de folhas laminadas de palmeiras, oscilando na brisa – tão perto – no jardim verde de relva. Já ali. 

E debaixo da arcada, o pote. Escorrido de amarelo. E para cá do vitral, o pote. Metade verde vidrado da boca à barriga; metade barro da barriga ao fundo. Em cima da mesa, do tampo de vidro. 
Debaixo da mesa, outro pote. Invertido. Colado ao vidro. Reflexo baço de sombra. 
Por detrás da mesa, a cadeira. Aqui. E eu sentada nela. 
E espero. Sentada. 

A espera faz-se tão longe! A potes.