20180426

Sem mão



Não era o lugar nem o momento ideais nem oportunos. Talvez por isso. E o proibido é o mais apetecido. Aula de História Social. Um letreiro: convite a loucuras inconfessáveis. Multas para quem fosse apanhado com:
“ (…) 2.º – Mão naquilo (15$00); 3.º – Aquilo na mão (30$00); (…) ”
Sorriram-se, sentados na última fila.
Ele lembrou-se daquela anedota do filho do maquinista: “O quê?... primeira classe e os bancos são de pau?”. Realmente… não dava jeito nenhum… Ainda assim, o mundo parava ali.
Olhou-a, como quem não sabe o que quer… mas querendo. Olhou-o, como quem não sabe o que faz… mas fazendo. Olharam-se, como quem não sabe nada de nada, mas sabendo bem. O desejo começava a ser forte!… Um botão. Não!... Sim, dizem os olhos. Bolas!… aqui não!... Sim… Aquela mão irradiava centelhas de calor que o trespassava até à medula. Sentiu um arrepio profundo a inundá-lo. Céus! A carícia tinha ido longe demais. Não conseguindo aguentar começou por deslizar também, disfarçadamente, a sua mão pelo braço da sua amada… pela perna, até ao joelho… depois para cima, lentamente, saia adentro…
De olhos fechados, saboreou com sofreguidão a embriaguez que se apoderava dele.
— Humm… Oh!... ... ... Raios parta o sonho!...
Estendeu o braço e encontrou-a. Subiu-lhe a mão, quente, por debaixo da camisola e alcançou-lhe o mamilo…
Ainda bem que ela estava ali, mesmo à mão de semear…

20180311

Metamorfose


Correr pelo campo, coberto de margaridas, é esvoaçar pelos céus como águia solta ao encontro do sol. Ah, se pudesse ter asas! Assim vibra Luísa, ao experimentar a sensação de liberdade que a vem salvar.
Luísa, prisioneira de um sonho, ao mergulhar os pés no tapete de margaridas, delira como já há muito não lhe acontecia. Ganhar asas é anseio que a persegue e a mantém cativa, refém de um azul que vislumbra ao longe, mas que ao mesmo tempo os grilhões do medo lhe vão impedindo que aconteça.
Agora, este chão, orvalhado de flores, segreda-lhe ousadia. Barricar as portadas do seu mundo, logo que o medo se retire por uns instantes, é a decisão acertada para se desembaraçar, de vez, do seu opressor. O medo ficará para sempre do lado de fora, impedido de atravessar a barreira. Há-de voar. Perseguir o sonho, mantê-lo vivo. E jamais será simplesmente mulher. Será deusa, anjo, pássaro ou apenas libelinha, tanto faz. Voará. Riscará o céu, a lua, as nuvens… ou apenas as flores. Irá ao encontro da luz mais brilhante, ou apenas da linha do horizonte. Mas voará. Voará com as asas coloridas que um arco-íris lhe trouxer.
Por enquanto é apenas crisálida.

(M. Fa. R. - 06.02.2009)

20180101

Boa travessia!




Ainda que pedras nos apareçam atravessadas no caminho, aproveitemo-las para nelas firmarmos os pés, fazendo delas o alicerce de um caminho mais forte, rumo à Luz do horizonte.


20170828

Aromas salgados




Nas dunas 
de cactos e hortelãs 
retenho ainda da vasta vegetação 
os aromas salgados 
bastante aspirados 
nas primeiras horas da manhã


20170807

À compita


Pólen - atracção quase fatal.

– Chega-te para lá, quero pousar aí!

– Aqui não passas, eu estava cá primeiro!

 Arreda-te lá, que a flor dá para os dois.

– Chega-te mais, que isto não é tudo teu!

– Move-te, lesma!

– Não me empurres! Vai para outro lado...

... não te quero cá!
– Eu gosto deste pólen daqui.

– Olha que eu chateio-me! Queres apanhar?

– Ufa! Enfim só. Estava a ver que não me largava o pedaço!


20170516

Tal perdigão


          _ortugal _erdeu o _ 

          não há _erda que lhe não venha!


20170416

Aleluia!



E eis que a vida inteira
Refloresce
O finito deu lugar à eternidade 
Perante o desconcerto do mundo