20180927

Pousar


Toda a vida é feita de riscos,
rabiscos e outros iscos
e por vezes versos;
outras vezes silêncios apenas,
gritos mudos que entopem a voz
para lá dos poemas que assombram em voo.

E há palavras nascidas entre poeira e pedras,
sem a humidade requerida,
que depressa se transformam em pó que o vento leva.

Porque o mundo ao derredor é um vaso de barro fendido,
que não retém a água para a rega.

A lua vai e vem, enche e esvai-se;
com momentos luminosos
e momentos de penumbra;
mas volta sempre o seu brilho
embora às vezes por entre nuvens.

E há dias inteiramente noites que são tudo escuridão;
maré vaza, preocupação,
união ao mundo
que depõe o coração nas mãos
dormentes, doentes, cansadas, estropiadas,
dantes ensinadas,
que a custo reagem aos sonhos.

O tempo passa
e desgasta
como água de um rio correndo
corroendo tudo à sua passagem.

Rio que corre para o grande oceano,
com alturas de grandes caudais
e outras de seca extrema;
desfrutando da passagem por montes e vales,
pedras, pedregulhos, calhaus rolantes
e paisagens de planícies, praias
e campos verdejantes.

Assim, entre o voo e a noite escura 
tem de haver momentos de pousar. 
Aproveitar um fresco orvalho, 
visita do sonho que ainda emerge das mãos. 

E sempre recomeçar.

20180608

Poeira



Há poeira no ar. No chão da rua. Nas escadas de cimento velho que levam ao primeiro andar...  
Infiltra-se nas casas através das frinchas, e vai até ao mais recôndito da alma – um outro patamar.
Quando chove pode enfim remover-se a poeira que se tinha acumulado e tornado eira, esteira, ladeira íngreme e pestilenta, escorregadia. A chuva refresca, lava e depura a macilenta agrura em que se tornou o dia-a-dia de poeira-eira-esteira-ladeira. 
Mas há poeira a formar-se continuamente no mesmo lugar. 
E quando chove dias a fio, num tempo em que se esperava estio, a poeira-eira-esteira-ladeira engole-se à mesa da cozinha defumada, como se broa bolorenta fora manjar. 

Por vezes é preciso deixar a poeira assentar. E depois a chuva cair. E regar. Lavar. Escorrer. Até parar. 

Mas como tantas vezes isso tarda em acontecer!

20180101

Boa travessia!




Ainda que pedras nos apareçam atravessadas no caminho, aproveitemo-las para nelas firmarmos os pés, fazendo delas o alicerce de um caminho mais forte, rumo à Luz do horizonte.


20170807

À compita


Pólen - atracção quase fatal.

– Chega-te para lá, quero pousar aí!

– Aqui não passas, eu estava cá primeiro!

 Arreda-te lá, que a flor dá para os dois.

– Chega-te mais, que isto não é tudo teu!

– Move-te, lesma!

– Não me empurres! Vai para outro lado...

... não te quero cá!
– Eu gosto deste pólen daqui.

– Olha que eu chateio-me! Queres apanhar?

– Ufa! Enfim só. Estava a ver que não me largava o pedaço!


20170416

Aleluia!



E eis que a vida inteira
Refloresce
O finito deu lugar à eternidade 
Perante o desconcerto do mundo


20160912

Felicidade é...


Deixar florir

                                          Felicidade é

                                          Deixar florir

Muito mais que partir
É ir e sobrevir
Adicionar e repartir
Prosseguir
Seguir com um sonho
Agir


                                                                                                            Sentir a vida
                                                                                                                            E sorrir


20160619

Aspirações


Hoje, eu aspirei a lagartixa...
mas mais do que isso,
depois aspirei também a cobra.

Não se deveria aspirar (a) certas coisas...

Não se deveria aspirar (a) certas coisas,
porque o pior vem depois:
e tirar o saco do aspirador?...