20120409

A Pedinchice


Uma caixa de fósforos e meio litro de petróleo; um quilo de prego de meio solho e de ripa, misturados; um pacote de cloreto e um quarto de quilo de sabão azul; um pacote de massa de meada; meio quilo de açúcar amarelo. Com conta, peso e medida. Os rebuçados quase todos. Sem conta nem medida.
Foi assim uma tarde inteira atrás do balcão da loja. E um enorme ralho furioso do pai.
Aos poucos, o pai foi-lhe confiando a loja. Desde pequenina foi aprendendo e ajudando e, depois, quando o pai a sentiu preparada, para além de aviar os fregueses, passou a anotar as faltas de mercadoria e a fazer as encomendas aos vendedores quando o pai não estava; conferia, também, a mercadoria que os viajantes iam entregar e arrumava-a nas prateleiras; e, ainda, tinha ao seu encargo o registo das facturas das compras no livro.
Naquela tarde, o pai teve que sair e ela ficou sozinha a tarde toda, como noutras vezes. Até se desenrascou bem… só com os rebuçados é que correu mal.
– O frasco dos rebuçados está quase vazio porquê?
– Vendi-os…
– E onde é que está o dinheiro? – perguntou o pai, de gaveta aberta, depois de conferir as vendas que ela tinha anotado.
Foi apanhada. E teve que dizer toda a verdade, que era só uma: tinha-os dado à Nelita, à São e à Fernanda.
A voz do pai ecoou pela loja inteira e, decerto, pela rua além. Encolheu-se com medo de que a trovoada trouxesse chuva, mas a nuvem negra passou ao lado e escapou daquela. Não escaparia de uma próxima, deixou o pai prometido. Mas “não acontecerá mais”, também ela deixou prometido.
Daquela vez, as amigas conseguiram levá-la à certa quando lá foram chamá-la para jogar à macaca com elas. Como lhes disse que não podia sair, encostaram-se ao balcão a dizerem que, então, tinha que lhes dar rebuçados para as compensar; e voltaram mais vezes, com falinhas mansas, a pedir sempre mais.
Mas não voltaria a cair noutra, porque viu como foi palerma ao deixar-se levar na pedinchice delas e no que elas lhe diziam. Afinal, se elas gostassem dela, como ela gostava delas e, ainda mais, sendo duas mais velhas do que ela, não teriam ousado abusar da sua bondade e fraqueza, agindo daquela maneira, só pensando nelas e nada na amiga.

10 comentários:

Olinda Melo disse...

Excelente conto, Fa.

Postei a notícia sobre um concurso de conto infantil. Quer lá ir ver?

Bj

Olinda

Nilson Barcelli disse...

Amigas da onça, é o que elas eram...
Beijos, querida amiga.

Lilá(s) disse...

Amigas sabidonas!
Bjs

mfc disse...

A vida vai-nos ensinando como neste micro conto irrepreensível de conteúdo!

Beijos,

Ailime disse...

Ó amiga Fá,
Uma delícia ler os seus contos.
Para além de apreciar a sua escrita como tenho referido sinto-me transportada à minha infância de doces carinhos mas numa época em que as minhas amigas (?) eram como as da história:)).
Beijinhos e muito obrigada.
Ailime

poetaeusou . . . disse...

*
amigos 110 ou talvez mais,
etc, etc, etc.
,
poema de Camilo C. Branco
,
conchinhas, ficam,
*

Rita Carrapato disse...

Fa

Um conto que encaixa tanto no contexto actual dos (des)afectos, sobretudo, da (des)amizade.

Beijinho

© Piedade Araújo Sol disse...

um conto delicioso.

(acho já tinha comentado.mas nao sei onde anda o coment.)

um beij

gota de vidro disse...

São das tais amigas que a ninguém interessam....Amizade????

Gostei deste texto

Bom domingo

Beijito da Gota

Nilson Barcelli disse...

Fa, querida amiga, tem uma boa semana.
Beijos.