20131231

Travessias




Cada dia tem a sua travessia. 
A cada ano se cruza um oceano. 
Agora escolhes: 
Ou te ajeitas a construir pontes 
Ou aprendes a nadar. 

Boas maresias!

20131120

Estende o coração ao mundo



Se tens o coração
de ti encharcado,
dentro retendo repetidamente o olhar,
sem dares oportunidade
a que outras belezas
se ensejem a manifestar,
qualquer dia negarás
que possam existir
peixinhos dourados
e crianças a sorrir.
Então o teu mundo
será apenas tu,
o teu coração
e um pretenso culto
que não podia florir.

20130822

Importa É Voar




Voar.
Ir ao encontro da luz mais brilhante,
ou apenas da linha do horizonte.
Riscar o céu, as nuvens, a lua…
ou apenas as flores.
Ser pássaro, anjo, ou apenas libelinha,
tanto faz.
Importa é voar.

20130618

Música em Sol menor



As rolas: logo de madrugada são um sol-e-dó. Sem sol nem dó. 
Antes que o sol desponte já a música aponta sem dó, a despertar o sol da manhã, e não se pode dormir um pouco mais. São cantorias tais que se espalham nos raios penetrantes do dia. É uma alegria em sol e dó,  uma arrelia sem dó nem piedade.
Por caridade, alguém me espante essas aves que me espantam o jardim. Enfim, dormir não é para mim.


20130518

Embora lá... vamos!



Ela é breve, é comprida, é redonda, achatada.
Tem braços e pernas, barbas, barbichas, sobrancelhas, barbatanas, rabos e badanas.
Ela é rabuda, é peluda, pestanuda, cabeluda, linguaruda.
Ela é fresca, é salgada, é arnenta, é congelada. É crua, é cozida, é frita, é assada...
Ela é cada posta de pescada!


Vamos nessa, ó Vanessa.



20130402

A Minha Planta




Tenho uma planta encantada
Que não sobrevive se não for bem alimentada.
Água e luz do sol nas doses certas
É o que a faz viver de folhas abertas.
Precisa de carinho e atenção
Para arraigar o coração.
Se me esqueço de a regar fica com sede
Se lhe escondo o sol definha sem rede;
Se lhe dou água a mais posso afogá-la
Se a exponho ao sol intenso posso matá-la.
Gosta que lhe cante e lhe faça rimas
E lhe murmure momentos de estimas,
Vitaminas de alegria,
Nutrientes de ternura,
Fontes a correr magia,
Onde brilhe a água mais pura;
Que não lhe soletre ventos uivantes
Nem lhe aponte rios transbordantes;
Que não lhe ensine desertos
E nem lhe chova céus abertos;
Mas que lhe firme oásis, estrelas, cor...

A minha planta chama-se Amor.



20130307

Vvvvvvvuumm



Vvvvvvvuumm… vvvvvvvuumm… o vento veste um capote de voo agreste e vvvvvvvuumm, vai pelos ares levando consigo muito do que encontra pelo caminho: leva velho, leva novo; leva leve e pesado; curto, comprido, plano, esférico, canelado; seja palha, papel, bola, árvore ou telhado… 
Vvvvvvvuumm… o vento agitado numa garrafa no céu, e despejado, faz um vvvvvvuumm vvvvvvuumm tão apressado até ao chão, desalmado, e levanta no seu capote de voo o que estiver mais à mão desamparado.
Ah, desgraçado!

20130126

O Serafim É Assim




Chocolates, amêndoas, rebuçados, bolos e bolinhós; crepes, pudins, nougats de amendoins, farófias ou filhós… só escondidos, senão… senão lá ia o Serafim logo meter a mão.
– “Desta idade em que estou nunca o doce me amargou!” – era sempre o seu refrão.
– Serafim, não mexas aqui! – avisava-o a mãe quando acabava de fazer o pudim.
Ah, pois não! À tarde, quando quase chegavam as visitas para um lanche, já lá faltava um quinhão.
– Serafiiiiimm!!... – clamava ela –, agora vou pôr na mesa isto assim? Que vergonha! Isto não se faz!... mas quando é que tu aprendes, rapaz?!... Tenho agora que me desenrascar com a lata das bolachas… ai, não!... – aflição! – também ela já vai a meio… e agora? Maldita hora!... Oh, Serafim, mas será que eu falo latim?!