12 março 2026

Gata Borralheira



(Degas, The rape - 1868/69)

O amor tem destas coisas: por vezes acaba. Até o dia que nasce com um sol esplendoroso pode ficar carregado de nuvens negras. Porque teremos nós a capacidade de mudar?
Um amor para a vida inteira é, cada vez mais, uma utopia. Sonha-se com o príncipe encantado, ou com a Cinderela, e depois, o príncipe, afinal, é um sapo, ou à Cinderela, descobre-se que não lhe serve o sapato.
Um Príncipe e uma Cinderela – uma história banal: Filomena, menina-mulher, casara com o príncipe dos seus sonhos, depois de meia dúzia de meses de romance, em que por uma meia dúzia de vezes se olharam e outra meia se tocaram. Nesse dia, sentira-se a princesa que ele tinha resgatado de Gata Borralheira, daquela sub-vida em que os maus tratos físicos e psicológicos eram o seu pão de cada dia. Começara, enfim, a viver. Emergira e sentira-se flutuar numa doce magia, numa felicidade dourada e reluzente, num sonho tão cor-de-rosa, que até estremecia com medo de acordar e vir a descobrir que aquele sonho era um pesadelo.
Decorreram semanas de mel e luar em que ele, amante apaixonado, sofregamente, a ensinou a ser mulher, a descobrir sensações nunca antes imaginadas. E aprendeu o que era amar, o que era desejo, o que era o êxtase e a plenitude da felicidade.
Exalando um mar transbordante de águas quentes – escaldantes até – cega de amor e de vida, passavam-lhe ao lado alguns pormenores. O seu marido, cada vez mais, vivia na noite, com o álcool como companhia principal; mas ela desculpava, porque ele a amava sempre com intensidade, impetuosamente. Se existiam algumas diferenças, essas eram em si. Descobriu porquê: estava grávida. Ele confiou-lhe lágrimas de alegria, e nela elevou-se o instinto maternal – ele queria um filho. Sublime contentamento, suprema negridão. Não, não era uma filha que ele queria…
O modo como se desenrola uma história, apesar de contornos peculiares, não é muito diferente de outras histórias. Filomena carregava uma filha no ventre e, ao mesmo tempo, foi carregando agressões, violações, fome; toda a espécie de violência física, verbal e psicológica, por parte de um homem cobarde e irracional que, sob a capa do álcool, parecia lograr um só propósito. E a filha nasceu… e morreu em seguida.
O que sempre temera acabara de acontecer.

(M. Fa. R. - 21.02.2009)

11 março 2026

Embora lá vamos!



Ela é breve, é comprida, é redonda, achatada.
Tem braços e pernas, barbas, barbichas, sobrancelhas, barbatanas, rabos e badanas.
Ela é rabuda, é peluda, pestanuda, cabeluda, linguaruda.
Ela é fresca, é salgada, é arnenta, é congelada. É crua, é cozida, é frita, é assada...
Ela é cada posta de pescada!


Vamos nessa, ó Vanessa!



03 março 2026

Aqui há gato!



O diabo anda à solta; mas: de noite todos os gatos são pardos. E ser advogado do diabo é tarefa ingrata (vá-se lá defender o indefensável!). No entanto, afirmo: de noite, todos os gatos são pardos!
Ora, os gatos dão-se pelo nome de bichos, ou bichas, conforme o seu género. Todavia, nem à luz do dia são muito fáceis de diferenciar, quanto mais de noite, na noite em que nos querem, na qual todos os gatos são pardos. Dizem que é o diabo a sete. Mas não. É exagero. O diabo não é um deles. É o diabo: não se dá pelo nome de bicho.
Os gatos, repito: de noite todos são pardos. Assim como nós, anónimos gatos de uma sociedade que se torna escura à luz do dia, onde só brilham brancos e siameses – gatos de uma raça superior. E nós, pobres diabos, temos que fazer pela vida, que só temos uma. Não somos gatos, que esses têm sete.
Será que os gatos têm mesmo sete vidas?! Talvez não. Ou talvez sim!... que alguns nunca mais se lhes vê o fim; e outros, coitados, mesmo com cada pontapé e trambolhão, mesmo sem direito a veterinário, lá vão, ainda que virados ao contrário, escapando, como podem, das tropelias que lhes fazem! Mas o diabo tem uma vida eterna pela frente. Se assim não fosse, certamente, não teria sido o escolhido, entre outros potenciais candidatos, para o fazerem andar no meio dos bichos, digo: dos gatos.
Isto é uma grande confusão! E não, ele não é um deles! Ele não é um desses quaisquer gatos! Tem andado entre eles, é um facto, mas não é um deles, entenda-se! Ele, neste caso, está inocente!...
Aqui há gato, efectivamente! Mas não é o diabo. Nem preto, nem pintado! É que: de noite todos os gatos são pardos. E enquanto uns vivem no inferno, para outros é só um paraíso pegado!
Parece que andam com o diabo no corpo! Mas não é o diabo o culpado.
O diabo anda à solta e vai continuar a andar; se há quem traz o diabo no corpo, a culpa não é só do diabo, mas é de quem o deixou entrar. Tenho dito!

(M.Fa.R. - 11.06.2010)

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