09/12/2010

(A)corda



“A corda rebenta sempre pelo lado mais fraco”. Um lado que vai enfraquecendo cada vez mais. Dando de si. Em dor.
De um novelo me tiraram e nós me seguram as pontas. Longe vai o tempo em que, nova e lustrosa, era bem resistente aos safanões das mãos que me faziam dançar.
Com o tempo e o uso, a fragilidade apodera-se de qualquer corpo e o meu não é excepção. Vão-se-me desfiando os fios, no desfiar dos dias, ao toque das Avé-Marias. Esticada à força de puxões e fricções, estou prestes a rebentar. Ai. Geme-me a alma quando a dança, cada vez mais pífia, me acusa do desgaste ao sacudir-me no chamamento para a missa (“a messe é grande e os trabalhadores são poucos”). As vibrações percorrem-me o corpo despido, dorido de tanto badalar. E escorre por mim o medo de soçobrar às mãos que me cofiam. Então, se houver um toque a rebate, depressa ficarei nas mãos de alguém.
Os sopros de uma coruja, que vislumbro por uma janela meio iluminada, minha companheira nesta noite assombrada, vêm gelar-me de frio medonho os ossos cansados; à minha volta move-se um vazio abismal; e eu, com os dedos descarnados de tanto me segurar, espero pelos compassos da aurora que me venham libertar.
Mas, se então ainda não partir, estou certa de que irão continuar a servir-se de mim, sem pensarem em me substituir. Custará assim tanto reparar que esta pobre corda, presa ao badalo do sino do campanário, está cada vez mais velha e gasta, e quase quase a rebentar?
E é então que me sinto abanar: “(a)corda”!

(M.Fa. R. - 09.11.2010)

16 comentários:

  1. Vivemos tempos insensíveis, em que exigem de nós até à última gota de suor e sangue...
    Reagir é preciso!

    beijo :)

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  2. Bom texto

    com excelente final

    Parabens

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  3. Há coradas assim mas e se rebentam...
    Não passa do chão claro.
    Que Deus nos aude
    É lindo Fá

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  4. muito bom como sempre.

    fechando com chave de ouro.

    beij

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  5. Ninguém repara em nada, ninguém vê nada, cada um puxa para o seu lado sem tentar verificar se o outro lado consegue resistir. É a triste realidade das relações humanas.

    Beijinho amigo da
    Verdinha

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  6. Pode parecer tontice seja mito ou credo
    Ainda que fosse negado por 3x
    Pedro não foi julgado por quem tudo lhe foi ensinou sabia que só o tempo faria o amadurecimento de sua moral, pois tudo estava dentro de uma só verdade, Amor acima de tudo.
    Sabiamente Ele deu a Pedro mais que palavras, exemplo, mais outra vez até hj.
    “ Por tuas palavras serás condenado”

    é sempre bom saber-te.
    Bjinhos e dias feito esta lua crescentes a vc FáM

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  7. *
    comunguei no teu poste,
    parabéns,
    ,
    uma corda
    quando acorda
    não recorda
    que é corda !
    ,
    Conchinhas,
    ,
    *

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  8. Há cordas a rebentar por todo o lado.
    Umas na hora certa, outras demasiado cedo.
    Em qualquer caso, a tua corda está aí para durar e perdurar...
    Beijos, minha amiga Fá.

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  9. É sempre do lado mais fraco que a corda parte.
    Era boa ideia unir bem os nós de forma a fortalece-la.
    Se bem que a amiga, não parece ceder com facilidade.

    A criatividade está ao rubro!

    Bjs fa

    José

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  10. Relacionar-se nunca foi simples, mas conviver, e não apenas viver, é a grande arte! O atrito, até mesmo das mãos sobre a corda, pode ser frutífero. Um abraço!

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  11. Uma corda... que nos acorda para a vida, e as suas fragilidades...
    Excelente como sempre, Fá!
    Beijinhos
    Ana

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  12. Um dia, a corda rebenta de certeza, enquanto não acontece, é mantê-la a trabalhar até ao fim.

    Beijinhos

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  13. Em todos os jogos do mundo - o jogo (de puxar) da corda - é o que nunca mudou. Os mais fortes ganham sempre.
    .
    Deixando um abraço
    Cuide-se
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
    .

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  14. Me senti como uma corda prestes a arrebentar...
    😩

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  15. Buen relato, con mucho suspenso te mando un beso

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«a vida, a meu ver, é polarizada entre a prosa – ou seja, as coisas que fazemos por obrigação, que não nos interessam, para sobreviver – e a poesia – o que nos faz florescer, o que nos faz amar, comunicar. E é isso que é importante.»
(Edgar Morin)

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