17/08/2026

Dias... e dias

Há dias chuvosos, intensos, tão cheios de tudo, que prendem o ar.
Há dias de chuva, regados, salgados, que sabem a mar.
Há dias em que o odor do sal se mistura com o sabor da dor.
Há dias em que as cores da terra e do céu se fundem na carne,
Se evolam em prece, se colam ao respirar.
Há dias assim.
Chuvosos,
Intensos,
Molhados,
Rasgados.

Assim me têm sido dias… e dias
Assentados.

Tudo isso…
E abençoados.

16/08/2026

Perdão




Ou se dá e se recebe, ou não há remissão.
É um acto de amor, de compaixão; um sopro de futuro, mão na mão.
Alívio no coração, crescimento, libertação; levantar de um peso com leveza; asas; tranquilidade no olhar.
Apagar um erro. Perdoar, perdoar!
É energia no caminho; poder de reconstrução; um passo em frente na vida, de afecto, de conversão.

Perdoar é ser perdoado. Fácil? Claro que não!

E sabes quantas vezes terás de perdoar?
Mesmo que não sejas bom a matemática: será sempre 70 X 7, pois então!

15/08/2026

Presença

Acabou por se levantar a custo da noite mal dormida, de cabeça pesada e de olhos colados pela manhã de sono que o dia lhe vinha roubar. A cama, que lhe custara a moldar ao corpo, bem que lhe pedia agora para esperar, mas o despertador digital, que lhe sobrara na mesinha de cabeceira, acenava que não. O tempo não se compadecia com esperas. Quão complicado de rodar a surpreendia, tantas vezes, o filme da vida! O mundo fazia-a correr, girar, muitas das vezes, sem indicar bem para onde ir. A vida dava-lhe voltas e trocava-lhas, sem contemplações pelo que ela pudesse sentir! Só um grande amor à vida era o seu companheiro das horas insubmissas, que o mundo nunca lhe tinha conseguido tirar. Com aquele amor fazia-se de forte na fraqueza que ocasionalmente a apertava. E nunca tinha deixado perder as esperanças de que dias luminosos pudessem chegar. Farta andava de calcorrear ruas, umas apinhadas de nada, outras vazias de tudo, outras com tudo e mais nada. Todas elas lhe sugeriam, pediam até, que era preciso ainda mais amar. E os sonhos sempre lhe voaram em liberdade. Eram gaivotas que não tinha deixado meter na prisão.
Por isso, não, não podia dormir quando a justiça social se faz ausente. (M.Fa.R. - 14.05.2010)

11/08/2026

Pausa




A borboleta branca volteia sob um sol afogueado.
É de dor o murmúrio amarelo, incendiado, do céu.
Geme o dia de outono descontente, porque a vibração soalheira é fria de tão quente.

A borboleta retorna volta e meia, indiferente, sobre os panascos ressequidos.
Doridos estão os pés; ardidos são os olhos; fugidos vão os sonhos.

E a borboleta branca pausa na canícula,
à espera que a empurre, fresca, um manso sopro, só que seja, de brisa.

10/08/2026

Noite de Verão



As noites de Verão
Também trazem solidão
Resquícios de sofrimento
Águas que gemem lamento
Sabor a sal e tormento
Aperto no coração

Nas asas de um condor
Um sonho de puro amor
Um sopro de maresia
Uma sede de infinito
Voo em forma de grito
Enquanto não nasce o dia

Noite de Verão
Entre a tarde e a manhã
Deixa leve a mágoa antiga
Deixa-me sorrir à vida
Esquecer a minha dor

Noite de Verão
Entre o sol e o luar
Traz alento ao meu viver
Traz sorriso ao meu querer
E deixa-me voar

(M. Fa. R. - 26.11.2009)

15/06/2025

Aos Santos Populares



Depois do Santo António e do São João
Que põem muita gente a bailar
Com o bom caldo verde, broa e a sardinha assada
E o suave cheirinho a manjerico no ar

Vem a fechar os festejos o São Pedro
Protector das viúvas e dos pescadores
Fazendo cair uma chuvinha quando quer 
Abre as Portas do Céu e acompanha as nossas dores
(Jo Ra Tone)

iniciativa:  Uma Quadra para um Santo, 2025
de Juvenal Nunes do blogue Palavras Aladas

17/12/2024

É Natal




Paz e Amor
Saúde, Felicidade e Alegria
Deseja-se a todos nestes dias
Pois despontou a aurora na noite
Nas trevas brilhou uma Luz
Para nos apontar o caminho
Rompeu as sombras do mal
Da Virgem nasceu Jesus
Num presépio pobrezinho
Desceu para nós – é Natal! 

Ao 4º Encontro Temático de Juvenal Nunes - Um Poema de Natal 

Publicado originalmente em 24/12/2010 em Nuvens de Orvalho (apagado), como resposta ao desafio de  Fábrica de Letras, Desafio de Dezembro
com Adenda em 31. 12. 2010:
Sai um ano e entra outro
Para muitos de modo banal
Mas cresça um ano de luz
Que em todo o ano Natal!



11/10/2024

Grilaria

 

1 grilo!

2 grilos; 3 grilos; 4; 5; 6; ... 10? ou mais, montes deles a saltar, ao abrir a cancela do jardim, nunca tal vi antes assim. 

É na garagem; das paredes ao telhado do sótão, pela noite dentro em estridente sinfonia, pior: tal gri-gritaria!

Dormir? qual quê?!... quem pode dormir com o som agitado destes mestres em grilaria?

Fazer o quê com tanto grilar? Quem pode aguentar toda a noite até ser dia?

Enorme cantoria: até na igreja - sacristia - em pedra negra de cantaria.

Grilos no jardim;

grilos no quintal;

grilos na minha cabeça...

Sacanagem!

E até no aeroporto no regresso da viagem.


24/02/2024

Sem concerto


Os tempos são de descalabro, não há concerto nem conserto enquanto o crime compensar, enquanto a sociedade e cada um olharem só para o seu umbigo e não fizerem a distinção entre o bem e o mal. 
Para as pessoas comuns, que já levaram e continuam a levar com lavagem cerebral por parte dos media, já é tudo normal e só correm para onde lhes apontarem, quais ratos levados ao precipício e crianças enfeitiçadas à caverna pelo flautista de Hamelin.


20/02/2023

De fugir

Um chão que nos foge dos pés 

Uma paisagem que nos treme nos olhos

Um mundo que não nos cabe nas mãos

 

Uma dor que nos chega

Uma palavra que nos parte

Um sorriso que nos morre

 

Uma voz abafada na garganta

Um olhar desfocado de cor

Um sentimento preso na pele

 

Uma ausência forçada

Uma estrofe falida

Uma ferida imunda

 

Uma boca faminta

Uma janela fechada

Uma tela deserta

 

Um abandono que mata

Uma flor de vida pisada

Um desrespeito que é faca

 

Um vento de nortada

Uma bomba perdida

Um grito de rajada

 

Um rol infinito

Um mundo enlouquecido

Um desamor a céu aberto

 

Escapar é imperativo

Desviar-se, fugir ao perigo que nos espreita o canto

É hora de calcorrear a vida mostrando que ela também é amar


(Publicado originalmente a 09/08/2011 no meu blogue Nuvens de Orvalho (apagado), para Fábrica de Letras e Palavras, poema 33)


12/09/2022

Mau(s) tempo(s), má fortuna, erros (nossos)…



Tantos puxões, abanões, para um lado e outro, trás! e frente, e verso, e vice-versa – perversos! –, rola e pula, baralha e volta a dar; uns a surtirem efeito, outros a nem por isso dar... 
É chuva, é vento, mau tempo, má fortuna, tormento. Erros nossos, ou maldade alheia. Tempestades no corpo e na alma, a todo o tempo, o tempo todo.  
Vidas assim, toda a vida, a vida toda – vivida, chovida, revirada, emaranhada, marada, transviada, desafortunada. 
Vidas desviradas, partidas, sofridas, desairadas: tal chapéu! acossado e degredado. 
Vidas enredadas como silvados ou trepadeiras embrulhados, que se fundem enrodilhados; e a cada puxão há troços que se partem e espinhos que se espetam e ferem a carne e a alma.
Estranhas formas que se nos desenham nos olhos e nas mãos... e na imaginação; que nos fazem, umas vezes, abanar, tropeçar, cair; e outras nos ferem até a levantar do chão. 
E restam, tantas vezes, a par com a (des)ilusão, riscos de sangue, alma rasgada; que o menor toque a frio, de qual pedra afiada ou de gelo, gera sobressalto e defesa, fuga, mais puxões e sangue; até que, de um jeito ou de outro, se aventure quem(?) a quebrar o círculo vicioso. 
Maus ventos no canal! Encostos ao silveiral.
Quem ousará semear o sol que nos poupe ao(s) mau(s) tempo(s)? 
Quem nos removerá os erros dos caminhos, para lá das passadas que ainda não foram dadas?...


21/12/2021

Oh, Jesus, Menino Deus


Oh, Jesus, Menino Deus, amado, 
Que nascestes indefeso no meio dos animais, 
Por eles aquecido, aconchegado; 

Quero pedir-Vos: 
Olhai por todas as crianças do mundo, 
Indefesas, a céu aberto, injucundo, 
Não por entre os animais, 
Mas à mercê de seres tais 
Sem calor afortunado, 
Que aos perigos estão votadas. 
 
Sempiterno, meu Senhor: 
Ouvi, neste mundo sem cor, 
Nem coração, nem amor, 
Os gritos que nos afogam. 
Misericórdia, meu Deus! 
 
Menino, por nós nascido, 
Tende compaixão deste mundo desunido, 
Desavindo, destroçado, 
Em vias de sufocado, 
E vinde! 
 
Nascei de novo agora, 
Nos corações atolados, 
Em esplendorosa aurora 
Queimai as ervas daninhas 
Que abafam estas florzinhas 
Sugando-lhes o ar sem dó. 
 
De mão dada à Vossa divina Mãe, 
Vinde socorrer quem grita  
Ou solta um suspiro em ai, 
E outros sem ais soltarem; 
 
Menino Deus, vos imploro, 
Tende piedade do povo agoniado, 
Do mundo por Vós amado, 
Mostrai-nos a Vossa Luz. 
 
Jesus, Menino Jesus, 
Eu sei que para nos salvar, 
Viestes morrer numa cruz, 
E que a nossa temos de carregar; 
Mas, meu Senhor, 
As crianças!... 
A essas trazei esperanças  
De que o amanhã brilhará! 
 
 
– Tende fé e animai-vos, 
Eu sempre ouvirei os ais 
Do povo ao deus-dará. 
Apegai-Vos a minha Mãe 
E lembrai-Vos que Ela vos disse: 
“Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”  
 
– Obrigada, meu Senhor e meu Deus!


(Conversando com o Menino Deus  minha participação, a convite de Rosélia Bezerra. na interacção de Natal.)
link na imagem

Para todos um Santo e Feliz Natal !

15/09/2020

Há receios à espreita das janelas


Há receios à espreita das janelas.

Mas olhando fora delas,
para além dos vidros ou da falta deles,
vemos sol, luar, passarinhos, flores...
Mas também chuva, ventos e todos os temores.

O mundo tem o seu papel – branco do dia
De cor e luz: alegria;
Tem o negrume da noite, 
Das nuvens cerradas de trovoada;
O colorido de sangue e pó, sem desvelo,
Sem dó.

E busca-se um mundo de bom sabor,
que nem sempre vemos sorrir.

Quando se impõe a deriva, 
logo a tontura;
e não se consegue ver
poesia em janelas, olhos de alguém.
A tormenta é quase sempre maior.

Mas temos sempre de emergir,
Recobrar o fôlego todos os dias.
Quando uma pequena aberta se vislumbrar,
consiga-se esquecer a dor e passar.

Cor, muita cor é que se quer,
De luz e flores preenchida.
Que de escuros cinzentos anda cheia a vida.

13/11/2019

manifestis in rebus teneri



A vida encarrega-se de nos amarar.
A vida ou alguém,
a ver se nos proscreve em sortilégios de maresias.

Acorrentados de pés e mãos
Ficamos à mercê das águas
Que tanto nos podem beijar
Como bater com força
E afogar, ou quase.

E frustram-se as palavras, 
Rebentando apenas luzes delas 
A sombrejar os mares 
Nos rebordos da alma.

____________
*manifestis in rebus teneri significado

07/09/2019

Buscai a claridade


 

Ao esvaecer das sombras
Esmorece o viço
Arrefece a dor
Ferve o frio
Cai a noite


*sugestão de leitura:(à sombra)

06/03/2019

Um brilho na chuva


A palidez das horas crava-se no dia molhado
Como quem se demora num gesto obtuso que arremeda o silêncio.
E o sol faz-se rogado, atordoado pelas nuvens
Carrancudas de chuva.

Há dias em que o sol só se abre em pequeníssimos raios
E falha uma luz maior a orientar o caminho.

Mas sabemos que o sol está lá
Todos os dias,
Por detrás do ar fechado,
Desdourado,
Sem se atrever a mostrar.

Como uma onda
No mar
Ou como as marés que influenciam a lua
Tudo tem um tempo.
E o tempo é para viver.

O tempo ajuda a moldar,
Desmoldar, refazer, levedar, dividir,
Repartir, adicionar e crescer,
Ainda que doa
A quem doer.

Mas haverá sempre uma outra qualquer onda por chegar.
Se não nos preparamos para o seu embate
Aprendendo a nadar ou tão-só a flutuar,
Ecoará a palidez
Roçagará o escarlate.

E também é preciso saber perder,
Para que não se prove o sabor amargo
Nem a árvore se despedace,
Pois não se pode contar só com vitórias.
Há que permanecer inteira, 
Nas cargas inglórias,
Com todos os ramos pegados ao tronco, à raiz.
Mesmo que nos viremos do avesso,
De cabeça ao fundo.

Depois, é levantar a cerviz
E retornar ao bulício do mundo.

Arriscar a semear um pouco de luz
E talvez colher algumas gotas de chuva luminosas.

Ainda que as nuvens se acerquem,
E em intempéries se alterquem,
Somando deslustro ao estrilho,
Não esmoreça o nosso brilho!

26/09/2018

Pousar


Toda a vida é feita de riscos,
rabiscos e outros iscos
e por vezes versos;
outras vezes silêncios apenas,
gritos mudos que entopem a voz
para lá dos poemas que assombram em voo.

E há palavras nascidas entre poeira e pedras,
sem a humidade requerida,
que depressa se transformam em pó que o vento leva.

Porque o mundo ao derredor é um vaso de barro fendido,
que não retém a água para a rega.

A lua vai e vem, enche e esvai-se;
com momentos luminosos
e momentos de penumbra;
mas volta sempre o seu brilho
embora às vezes por entre nuvens.

E há dias inteiramente noites que são tudo escuridão;
maré vaza, preocupação,
união ao mundo
que depõe o coração nas mãos
dormentes, doentes, cansadas, estropiadas,
dantes ensinadas,
que a custo reagem aos sonhos.

O tempo passa
e desgasta
como água de um rio correndo
corroendo tudo à sua passagem.

Rio que corre para o grande oceano,
com alturas de grandes caudais
e outras de seca extrema;
desfrutando da passagem por montes e vales,
pedras, pedregulhos, calhaus rolantes
e paisagens de planícies, praias
e campos verdejantes.

Assim, entre o voo e a noite escura 
tem de haver momentos de pousar. 
Aproveitar um fresco orvalho, 
visita do sonho que ainda emerge das mãos. 

E sempre recomeçar.
Adenda:

All life is made up of risks,
doodles and other baits
and sometimes verses;
other times only silences,
silent screams that clog the voice
beyond the poems that haunt in flight.

And there are words born between dust and stones,
without the required humidity,
that quickly turn into dust that the wind takes.

Because the world around is a cracked clay pot,
that does not retain water for irrigation.

The moon comes and goes, fulls and fades away;
with luminous moments
and moments of darkness;
but its brightness always comes back
though sometimes through clouds.

And there are days entirely nights that are all darkness;
ebb tide, worry,
union with the world
that deposits the heart in the hands
numb, sick, tired, crippled,
taught before,
that at cost, react to dreams.

Time goes by
and wears all out
like running river water
corroding everything in its path.

River that flows into the great ocean,
with high flow heights
and others of extreme drought;
enjoying the landscape through hills and valleys,
stones, boulders, rolling pebbles
and landscapes of plains, beaches
and green fields.

So, between the flight and the dark night
there must be times to land and forget the strain.
To enjoy a fresh dew,
visit of the dream that still emerges from the hands.

And always start again.

08/06/2018

Poeira



Há poeira no ar. No chão da rua. Nas escadas de cimento velho que levam ao primeiro andar...  
Infiltra-se nas casas através das frinchas, e vai até ao mais recôndito da alma – um outro patamar.
Quando chove pode enfim remover-se a poeira que se tinha acumulado e tornado eira, esteira, ladeira íngreme e pestilenta, escorregadia. A chuva refresca, lava e depura a macilenta agrura em que se tornou o dia-a-dia de poeira-eira-esteira-ladeira. 
Mas há poeira a formar-se continuamente no mesmo lugar. 
E quando chove dias a fio, num tempo em que se esperava estio, a poeira-eira-esteira-ladeira engole-se à mesa da cozinha defumada, como se broa bolorenta fora manjar. 

Por vezes é preciso deixar a poeira assentar. E depois a chuva cair. E regar. Lavar. Escorrer. Até parar. 

Mas como tantas vezes isso tarda em acontecer!

01/01/2018

Boa travessia!




Ainda que pedras nos apareçam atravessadas no caminho, 
aproveitemo-las para nelas firmarmos os pés, 
fazendo delas o alicerce de um caminho mais forte, 
rumo à Luz do horizonte.

Adenda em 29/01/2024:
Tradução de Ana Freire, in: Art and Kits, Awakenings...

"Even if stones appear to cross our path, 
let us take advantage of them to place our feet on, 
making them the foundation of a stronger path, 
towards the Light of the horizon."


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