18 dezembro 2010

Escrever é Voar

– Um escritor pode delirar de forma deliciosa ao escrever. Pegar nas nuvens e com elas erguer castelos, cavalos, cavaleiros, pastores, rebanhos, pradarias, florestas, flores, sinfonias; e muitas cores roubar ao arco-íris para pintar um painel; e com o mesmo pincel soletrar o calor do sol ou o orvalho, a chuva, o frio, a neve, ou o amor, o trabalho, a dor, a tristeza, a alegria; e a fome, a guerra, a paz, a vida, a morte, a fortuna ou a má sorte podem estar lado a lado na mesma paleta; e cruzarem-se mares e céus, rios e ruas, estrelas e luas, vulcões, e ventanias, ou vendavais, trovoadas, tempestades, furacões e tudo o que se quiser e ousar fazer brotar dos lábios e dos corações. Acreditas?
Escutava-o enlevado. Quando se tem 15 e 16 anos pode-se ter o mundo aos pés sem se o saber. Pode-se, até, ter o mundo na mão e fazê-lo girar, ou então deixá-lo cair por senti-lo pesado.
– Isso é voar. E fazer sonhar. Eu também sonho um dia ser escritor. Escrever isso e muito mais. Escrever um livro, como tu. Imprimir no papel palavras que me nasçam na mão, mas não sei se isso é querer agarrar com os dedos a lua toda, cheia, quando apenas se vai sendo tocado por uns raios do seu luar.
– Quando se sonha tudo é possível: a lua brilha-te na mão; as estrelas sorriem-te nos olhos; o arco-íris solta-se-te da boca; o sol é o teu coração; e todo tu és rios e mares, fogo e água pura, areia que enche o deserto, camada de ozono que envolve a atmosfera; és a própria atmosfera, o ar que tu próprio respiras. Acredita: “O sonho comanda a vida”. E tu podes. Tu és. Aceita. E avança resoluto, sem nenhum receio de contrariares ventos, correntes e marés. Firma os pés na terra, deixa que te escorra no peito o suor dessa guerra e, nas mãos, terás ganho essa luta.

(M. Fa. R. 16.11.2010)

09 dezembro 2010

(A)corda



“A corda rebenta sempre pelo lado mais fraco”. Um lado que vai enfraquecendo cada vez mais. Dando de si. Em dor.
De um novelo me tiraram e nós me seguram as pontas. Longe vai o tempo em que, nova e lustrosa, era bem resistente aos safanões das mãos que me faziam dançar.
Com o tempo e o uso, a fragilidade apodera-se de qualquer corpo e o meu não é excepção. Vão-se-me desfiando os fios, no desfiar dos dias, ao toque das Avé-Marias. Esticada à força de puxões e fricções, estou prestes a rebentar. Ai. Geme-me a alma quando a dança, cada vez mais pífia, me acusa do desgaste ao sacudir-me no chamamento para a missa (“a messe é grande e os trabalhadores são poucos”). As vibrações percorrem-me o corpo despido, dorido de tanto badalar. E escorre por mim o medo de soçobrar às mãos que me cofiam. Então, se houver um toque a rebate, depressa ficarei nas mãos de alguém.
Os sopros de uma coruja, que vislumbro por uma janela meio iluminada, minha companheira nesta noite assombrada, vêm gelar-me de frio medonho os ossos cansados; à minha volta move-se um vazio abismal; e eu, com os dedos descarnados de tanto me segurar, espero pelos compassos da aurora que me venham libertar.
Mas, se então ainda não partir, estou certa de que irão continuar a servir-se de mim, sem pensarem em me substituir. Custará assim tanto reparar que esta pobre corda, presa ao badalo do sino do campanário, está cada vez mais velha e gasta, e quase quase a rebentar?
E é então que me sinto abanar: “(a)corda”!

(M.Fa. R. - 09.11.2010)

23 novembro 2010

Pouca Terra

Entrei naquele comboio à procura não sabia bem do quê, esperando ausentar-me, mesmo que apenas por algumas horas, de uma solidão penteada e maquilhada.
Entrei e não vi ninguém. Vi. Mas não vi. Os meus olhos não pararam em quem quer que fosse. Mesmo caminhando de frente, eram só cabeças em corpos sentados. E lugares vagos – alguns. Instalei-me num, ao acaso. No lugar ao lado, junto à janela, já estava alguém. Olhei-o de relance – de óculos de sol, todo barbas e ainda cabelos – e senti-me corar, mas talvez que os óculos escuros lhe tenham ocultado o fogo do meu rosto. Deus queira, pois se não o que haveria ele de pensar? Esboçou um sorriso. Retribuí, sem que qualquer palavra se atrevesse a aflorar, apesar de os pensamentos se me atropelarem, como numa gincana de bicicletas, em que um ciclista cai e todos os outros, sem terem tempo de se desviarem, se enfaixam num feixe desalmadamente. Desconsoladamente. Que fazia ele ali, saído de um filme antigo, num comboio regional, anónimo, sozinho?
A chegada do revisor vem colocar um pouco de ordem nesta cabeça.
Há muito, muito tempo, quando eu era pouco mais do que uma criança, sonhava com um príncipe encantado como ele, naquela série, com uma voz de ouro timbrado que me fazia pular o coração. Ele desenhar-me-ia palavras que me seriam carícias.
E agora, por que é que não acontece nada?
As cores com que se pinta o mundo quando se é adolescente vão-se esbatendo com o tempo, tornando-se mais foscas, menos garridas e, por vezes, escorridas, esborratadas. Esvaídas.
Espreito-o pelo canto do olho. Parece absorto, ou disfarça.
Se fosse naquele tempo, o mais provável seria que o meu coração, cheio de acordes maiores, me tivesse afogado a voz; agora, aqui, a minha voz imerge na profundidade das décadas passadas à procura de um coração arroubado, mas também não consegue retirar dele som nem tom.
O comboio abranda a marcha e percebo que estou quase a desembarcar. Levanto-me para o corredor e o meu companheiro de viagem dá sinais de se preparar para também sair, e então dirige-se-me com aquela voz que me paralisa:
- Muito obrigado pela companhia e por me dar a beber do aroma silencioso do seu perfume.
E vai embora sem eu ser capaz de lhe dizer que, há mais de trinta anos, era ele - Sandokan - que me prendia a atenção ao ecrã.
(M. Fa. R. - 26.10.2010)

12 novembro 2010

100 Palavras… ou com poucas mais

Um dia de Formação das 10 às 17 com intervalo para almoço.
Uma única janela no aconchegado gabinete com a persiana corrida. Aconchegado – bem aconchegado – para quatro pessoas; persiana corrida para tornar o ambiente adequado à projecção. Assim não me posso distrair a ver o tempo que faz lá fora.
Ainda bem que não sofro de claustrofobia!
Sorrio. Sorrimos.
Apresentamo-nos: Manuela – formadora; Carla, Maria e Ana – formandas.
Blá, blá, blá… ponho os óculos; presto atenção ao ecrã (as imagens são sugestivas); sigo todos os passos (o dia vai de corrida sem ninguém o apanhar); coloco dúvidas; respondo a questões; troco ideias e ideais… sugestões; tiro os óculos. Sorrio.
Passou a manhã.
Pausa.
Espero.
Veio a tarde.
Sorrio. Ponho os óculos. Embalo-me em mais Marketing Social e deixo-me levar. Parece que temos de usar mais a regra dos três C – a regra de ouro para que a informação que queremos passar surta o efeito desejado – ser clara, curta e concisa. Tiro os óculos.
O dia já lá vai… Ainda foi só o primeiro dia.
Sim, um novo dia de formação fica marcado.
Sorrio.
Um dia bem formado!
(M.Fa.R. - 11.10.2010)

03 novembro 2010

(S)Em Dor

Procurei e encontrei a cura para a dor. E cheguei até à cura pelo coração: o coração não dói. Está provado cientificamente que o coração não dói. Sente dor mas não dói. O que dói é o que o envolve. Por isso a dor é nervosa. E psicológica: passa pelo pensamento. A dor é nervoso-psicológica: os nervos levam-na ao cérebro – ao pensamento. Pensar na dor faz doer. Há, por isso, dores do cérebro, não do coração – o coração não pensa. Não pensa: não dói. Só sente dor, mas não dói. Dói o que pensa. E o que pensa é o cérebro. É, então, o cérebro que dói. Ora, se as dores são do cérebro, e se se procura a cura para a dor, essa cura passa pelo cérebro. Nada mais fácil de curar: tira-se a dor do cérebro! Como? Tira-se o cérebro. Sem coração não se vive, que é o órgão vital do corpo. Mas pode bem viver-se sem cérebro(!). E, assim, jamais haverá dor. Só com o coração no comando poder-se-á viver. E como o coração não dói, nada mais em nós poderá doer. 
 (M. Fa. R. – 2010-07-09)

22 outubro 2010

Encontro de grau imediato



O “S” inconfundível espreita-lhe pela camisa aberta no peito enquanto ele chama o elevador. Este trepa, numa subida pachorrenta, até ao último piso do elefante branco. Finalmente a porta abre e ele entra, arrastando consigo a euforia de mais uma maratona de treino pelos ares:
– "Eu sou o Super-Homem, o maior da minha rua..."
O elevador inicia a descida, mas detém-se logo de seguida para dar entrada a mais uma célebre figura, de aparência embaciada, sorumbática ou, se calhar, sonolenta – era ainda madrugada:
– "Fiz tudo p´ra sobreviver, em nome da terra, no fundo p´ra te merecer."
– Oh, “encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos.” – Tenta o primeiro socorrê-lo.
O semblante baço dá lugar a um espanto incrédulo, confuso – parece ver estrelas cadentes. Apalpa ali um calor nebuloso dentro do elevador que o faz temer a proximidade daquele ser de outro mundo.
– Oh, pá... serás tu aquele que faz 10 segundos daqui até à lua?
– "Não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar."
– Chega-te para lá! – Defende-se inflamadamente.
– "Não desencantes os meus passos, faz de mim o teu herói."
Parecem cruzar-se ali os quatro elementos: move-se o ar ao encontro da terra; despeja-se o mar dos olhos de um no fogo dos olhos do outro.
– Muito bem, se me roubas as palavras, e se és mesmo esse herói, vais tratar do que tiver que ser!
– “Encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar.”
– É que “eu venho do nada porque arrasei o que não quis em nome da estrada, onde só quero ser feliz.”
– Ah, percebo – responde o Super-Homem –, ser feliz… ser feliz é o que todos querem, nem que para isso ponham o mundo num caos, e depois cá está o Super-Homem para dar a volta à questão.
– E não é para isso que és o Super-Homem? Se tens poderes sobrenaturais tens mesmo é que ajudar as pessoas.
– Pois claro, enquanto souberem que existe um Super-Homem que as pode socorrer, fiam-se nele e perdem a noção da realidade, apelando aos seus poderes sobrenaturais. Mas afinal em que queres a minha ajuda?
– “Vai desarmar a flor queimada, vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.”
– Logo vi! E isso é o quê? O Orçamento do Estado, por acaso?... Ó meu amigo, isso já lá não vai nem com um Super-herói como eu!
E mal se abre a porta do elevador já o Super-Homem desapareceu.


(M. Fa. R. - 19.10.2010)

14 outubro 2010

Onde está o Pão?

 

Sem pão e sem amor
Sem sequer uma côdea com bolor
Que lhe caia na mão
Aos tropeções por essa vida
Sem esgar na noite entorpecida
À espera de aquecer o coração
Anda perdida qual mendigo
Muita gente em nosso mundo
Matando o ar em campo nu de trigo
Que já foi seu e que ardeu

Quem lhe roubou o seu pedaço de pão
Quem lhe sacou o coração e o pisou
Fingindo bem-fazer
Dizia que era dia e fez a noite
E continua airosamente a sussurrar
Que o pão dos outros é ateu
Que só quem o tem o mereceu
E que o dia de mais pão há-de chegar

Mas eu grito enquanto a voz não me doer
Enquanto a noite escura estiver
Enquanto eu vir ainda um pouco mais além:
Anda muito ladrão por aí com cara de gente-bem!
(29.08.2010)

Também publicado em Porosidade Etérea

 

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