– Um escritor pode delirar de forma deliciosa ao escrever. Pegar nas nuvens e com elas erguer castelos, cavalos, cavaleiros, pastores, rebanhos, pradarias, florestas, flores, sinfonias; e muitas cores roubar ao arco-íris para pintar um painel; e com o mesmo pincel soletrar o calor do sol ou o orvalho, a chuva, o frio, a neve, ou o amor, o trabalho, a dor, a tristeza, a alegria; e a fome, a guerra, a paz, a vida, a morte, a fortuna ou a má sorte podem estar lado a lado na mesma paleta; e cruzarem-se mares e céus, rios e ruas, estrelas e luas, vulcões, e ventanias, ou vendavais, trovoadas, tempestades, furacões e tudo o que se quiser e ousar fazer brotar dos lábios e dos corações. Acreditas?
Escutava-o enlevado. Quando se tem 15 e 16 anos pode-se ter o mundo aos pés sem se o saber. Pode-se, até, ter o mundo na mão e fazê-lo girar, ou então deixá-lo cair por senti-lo pesado.
– Isso é voar. E fazer sonhar. Eu também sonho um dia ser escritor. Escrever isso e muito mais. Escrever um livro, como tu. Imprimir no papel palavras que me nasçam na mão, mas não sei se isso é querer agarrar com os dedos a lua toda, cheia, quando apenas se vai sendo tocado por uns raios do seu luar.
– Quando se sonha tudo é possível: a lua brilha-te na mão; as estrelas sorriem-te nos olhos; o arco-íris solta-se-te da boca; o sol é o teu coração; e todo tu és rios e mares, fogo e água pura, areia que enche o deserto, camada de ozono que envolve a atmosfera; és a própria atmosfera, o ar que tu próprio respiras. Acredita: “O sonho comanda a vida”. E tu podes. Tu és. Aceita. E avança resoluto, sem nenhum receio de contrariares ventos, correntes e marés. Firma os pés na terra, deixa que te escorra no peito o suor dessa guerra e, nas mãos, terás ganho essa luta.
(M. Fa. R. 16.11.2010)








