20/03/2014

A Potes


Um pote: metade barro do fundo à barriga; metade verde vidrado da barriga à boca. Pequeno. Em cima da mesa, no tampo de vidro. 
Outro pote: grande – do lado de fora do vitral. Escorre-lhe o amarelo vidrado sobre o branco barro. 

Para lá das arcadas, no cimo da montanha – lá ao longe – tomba a bruma ao encontro do verde das pastagens, por detrás do barro das telhas nos telhados – menos longe – parcialmente encobertos por outros verdes que se desdobram em vários tons de ramagens. Espessas. Compactas. Mais perto. Mas, por sua vez, outros barros de telhados se lhes sobrepõem – ainda mais perto – espreitando outros verdes, esguios de caniços e de folhas laminadas de palmeiras, oscilando na brisa – tão perto – no jardim verde de relva. Já ali. 

E debaixo da arcada, o pote. Escorrido de amarelo. E para cá do vitral, o pote. Metade verde vidrado da boca à barriga; metade barro da barriga ao fundo. Em cima da mesa, do tampo de vidro. 
Debaixo da mesa, outro pote. Invertido. Colado ao vidro. Reflexo baço de sombra. 
Por detrás da mesa, a cadeira. Aqui. E eu sentada nela. 
E espero. Sentada. 

A espera faz-se tão longe! A potes.


31/12/2013

Travessias




Cada dia tem a sua travessia. 
A cada ano se cruza um oceano. 
Agora escolhes: 
Ou te ajeitas a construir pontes 
Ou aprendes a nadar. 

Boas maresias!

20/11/2013

Estende o coração ao mundo



Se tens o coração
de ti encharcado,
dentro retendo repetidamente o olhar,
sem dares oportunidade
a que outras belezas
se ensejem a manifestar,
qualquer dia negarás
que possam existir
peixinhos dourados
e crianças a sorrir.
Então o teu mundo
será apenas tu,
o teu coração
e um pretenso culto
que não podia florir.

25/08/2013

Importa É Voar




Voar.
Ir ao encontro da luz mais brilhante,
ou apenas da linha do horizonte.
Riscar o céu, as nuvens, a lua…
ou apenas as flores.
Ser pássaro, anjo, ou apenas libelinha,
tanto faz.
Importa é voar.

18/06/2013

Música em Sol menor



As rolas: logo de madrugada são um sol-e-dó. Sem sol nem dó. 
Antes que o sol desponte já a música aponta sem dó, a despertar o sol da manhã, e não se pode dormir um pouco mais. São cantorias tais que se espalham nos raios penetrantes do dia. É uma alegria em sol e dó,  uma arrelia sem dó nem piedade.
Por caridade, alguém me espante essas aves que me espantam o jardim. Enfim, dormir não é para mim.


18/05/2013

Embora lá vamos!



Ela é breve, é comprida, é redonda, achatada.
Tem braços e pernas, barbas, barbichas, sobrancelhas, barbatanas, rabos e badanas.
Ela é rabuda, é peluda, pestanuda, cabeluda, linguaruda.
Ela é fresca, é salgada, é arnenta, é congelada. É crua, é cozida, é frita, é assada...
Ela é cada posta de pescada!


Vamos nessa, ó Vanessa!



02/04/2013

A Minha Planta



Tenho uma planta encantada
Que não sobrevive se não for bem alimentada.
Água e luz do sol nas doses certas
É o que a faz viver de folhas abertas.
Precisa de carinho e atenção
Para arraigar o coração.
Se me esqueço de a regar fica com sede
Se lhe escondo o sol definha sem rede;
Se lhe dou água a mais posso afogá-la
Se a exponho ao sol intenso posso matá-la.
Gosta que lhe cante e lhe faça rimas
E lhe murmure momentos de estimas,
Vitaminas de alegria,
Nutrientes de ternura,
Fontes a correr magia,
Onde brilhe a água mais pura;
Que não lhe soletre ventos uivantes
Nem lhe aponte rios transbordantes;
Que não lhe ensine desertos
E nem lhe chova céus abertos;
Mas que lhe firme oásis, estrelas, cor...

A minha planta chama-se Amor.



poderá também gostar de:

Tons Maiores: